Arquivo para julho \19\UTC 2008

Enquanto Isso na Boate

Um lampejo laranja ofuscante e escuridão. Escuridão total. O silêncio abafado de um espaço pequeno envolve. Nada, nenhum pensamento ou lembrança, esclarece o acontecido. Mas o olho se acostuma, sensível à ausência de luz e ele tateia o grande retângulo à frente, até esbarrar em um dispositivo que ilumina o cubículo.

Que estranho aposento! Estantes metálicas nas paredes, forradas com caixas coloridas de vários tamanhos, envoltas em desenhos coloridos, de seres bizarros e personagens épicos, empunhando espadas ou bacamartes incomuns. E também placas de aparência metálica e fios azuis, além de objetos inidentificáveis para o ser ali presente.

Entre todos estes, dois itens se destacam como se tivessem luz própria, perfeitamente familiares. Uma faca prateada até o cabo, pequena, com uma lâmina de base larga, a partir da qual o desenho de uma chave se espalha. Uma chave composta de dentes retilíneos e paralelos, gravada nos dois lados da lâmina. O outro é um pequeno livro vermelho, com capa e lombada lisas. Novo, porém estranhamente velho, é a sensação que causa. Aberto na primeira página, quase em branco, ou melhor, vermelho, ele vê em quadrados, linhas, pontos, signos ilegíveis. Mas eles se movem! Aos poucos fica legível a única frase da página: Pegue a faca e o livro, abra a porta e saia. Apague a luz antes.

As instruções são praticamente uma leitura dos instintos da criatura. O lado de fora é um corredor iluminado por uma fraca luz esverdeada que vem do encontro das paredes com o teto e forrado por inteiro com algo macio que lembra pêlos curtos. À esquerda há uma outra porta entreaberta, emanando um cheiro conhecido e excitante. Lá dentro meia luz, uma cadeira próxima à fresta e uma mesa no canto onde um casal copula, de costas para porta. Os largos olhos de pupilas verticais percebem algo errado. Comparam a mão: Azul e de unhas negras. Longe do padrão local, róseo e transparente. O olhar foca no casal e sua mão vai mudando lentamente, até uma sensação de segurança se instalar. Na cadeira roupas dobradas. A criatura as veste suavemente na penumbra. Depois segue pelo corredor.

Este termina numa sala ampla, onde vários indivíduos jovens estão sentados em frente de caixas luminosas onde imagens passam aceleradamente. São batalhas, em essência, mas ela não repara nos detalhes. Busca uma saída, numa parede de vidro ao fundo e passa sem ser notada. Embora o responsável pelos recrutas, um rapaz pálido, cheirando á introspecção e timidez a veja e sorria. A criatura não entende a nova sensação de incômodo causada pela troca de olhares. Mas não importa.

Outro corredor. A parede de vidro atrás dela é escura por fora. O corredor é cinza e largo, com um teto bem alto, de onde pendem grandes fontes de luz bem espaçadas entre si, dando o efeito que se está em um ambiente ao ar livre, embora coberto. Ela segue na única direção onde parece haver uma saída e repara na ausência de som dos seus pés descalços. Sorri com a novidade. Há uma bifurcação. Um som forte e repetitivo vem da extremidade esquerda, enquanto na direita há uma escada. Olhos castanhos escuro espiam o livro que cabe na mão: Suba as escadas, diga boa noite e que estão lhe esperando.

No primeiro lance um homem em roupas angulosas de tecido preto vigia do alto da escada, ao lado de uma porta. Os olhos estão cobertos por pedaços de vidro escuro em uma fina armação metálica. A voz que fala com ele já adquiriu um tom local agradável, sem a força crepitante do fogo. A porta estala e abre. Um corredor largo com duas pequenas janelas de metal fechadas desperta uma sensação de familiaridade. A porta no extremo abre sozinha e dá acesso a uma sala alta e ampla, onde em uma mesa no centro um homem velho espera.

O homem e a mesa parecem vir da mesma época. Os entalhes e o estilo dos arabescos na tampa, o verniz antigo na madeira refletindo o brilho no rosto sulcado pela idade, os sólidos pés em forma de patas mitológicas sustentando mais por respeito do que por necessidade, um olhar inabalável e sereno, como de uma besta acordada no início da criação e que jamais repousa. Atrás dele uma cortina vermelha cobre um grande quadro, denunciado pelas bordas da moldura. Cercando a cortina em um arranjo elegante, estantes de livros, armas, máscaras e mapas, iluminados pela luz indireta e amarelada de luminárias douradas. Dos dois lados da porta de entrada, um mosaico de retângulos coloridos mostra várias cenas, corredores já percorridos, a sala dos recrutas, ambientes coloridos de uma exótica taverna. Ela pensa em como todos enxergam na semi-obscuridade constante daquele lugar e lembra dos guardas lá fora.

– Os óculos escuros deles enxergam a verdadeira natureza das coisas.

Não parece estranho como ele seguiu sua linha de raciocínio. Esse detalhe e todo aquele ambiente parecem naturais a ela como sua própria casa. Como um recanto conhecido á beira da estrada, pelo qual sempre se passa a caminho do trabalho. O mais curioso é como as palavras soam compreensíveis após um curto atraso na pronúncia.

– Aproxime-se.

Ela abandona o centro do desenho intrincado, no grande tapete onde estava e chega a uma das quatro cadeiras de veludo verde. O velho a olha inexpressivo, enquanto pega um pequeno objeto preto na mão e aponta para o mosaico em movimento. Um dos retângulos amplia-se e o rosto de um homem jovem é mostrado em vários ângulos diferentes.

– O alvo. Sua licença de caça vai até o amanhecer. O contrato padrão. Após extrair seu prêmio, você deve substituir por isto.

Ele empurra uma pequenina caixa quadrada pela mesa. Dentro dela uma brilhante jóia octogonal e transparente, do tamanho de uma bola de golfe. Ela gira a gema na mão, sente seu peso e num gesto rápido desloca o maxilar o suficiente para engoli-la com um estalido. Não há forma mais prática de carregar. Com o semblante inabalado, o velho lhe estende uma folha de pergaminho, aonde entre glifos coloridos, pequenos símbolos vão mudando de forma até se tornarem legíveis. Ela abre o livrinho vermelho e os mesmos signos cambiantes lhe indicam a ação correta. Ele a olha fixamente.

– Ainda desorientada?

– Não mais.

Ela fura a ponta do dedo com a adaga e desenha no espaço vazio do pergaminho. O sangue parece animar as coras da folha por um momento e então vai ficando menos brilhante. O velho guarda o pergaminho em uma gaveta e pela primeira vez faz uma expressão sutilmente alegre.

– A propósito, boa escolha de figurino, caiu muito bem para a noite de hoje. Mas vai precisar de sapatos. Tenho este par aqui, sem custo adicional nem compromissos.

Ele bota na mesa um para de sapatos de verniz azul escuro, ocasionalmente combinam com o vestido. Ela pega sem hesitar.

– Sim, façamos da maneira local, pés desnudos são demasiado incomuns para o ambiente. Quanto á escolha, foi circunstancial. Meu instinto tem uma tendência a ser sensato.

– Bom senso minha cara, é a primeira virtude que abandonará o senhor B. quando lhe ver. Boa sorte.

Ela levantou, olhou o próprio corpo e sorriu. As antigas armadilhas continuavam pegando novos pássaros. Certas coisas nunca mudam.

***

Após a saída dela, o velho homem pegou uma sacola de pano da gaveta e espalhou seu conteúdo pela mesa. Poliedros brilhantes de metal rolaram mudos no revestimento de couro.

– Seus melhores dados senhor B., esta noite. Não que seja de alguma valia.

Mas eu prometo me esforçar. É o mínimo a fazer por um bom cliente. Boa sorte.

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Um Homem Doce

Devia fazer sentido. Olhar aquela linha divisória e tomar uma decisão. Fato encadeado e de conseqüências óbvias. É tão simples de usar, até perde o sentido. Nem mesmo uma linha divisória ou aquelas cores diferentes seriam necessárias, quando um aroma entre metal eletrificado e grama molhada deixa um sutil arrepio no corpo inteiro e um calor invade o abdômen. Diferentes sensações, diferentes acessos. Os rodízios do banquinho redondo estão repousando agora, seus movimentos cessaram a ausência de razão em tudo o que há. No entanto, no eixo entre meus pés paralelos, meus cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, há o anúncio de salto adiado. Como só um lobo seria capaz, se ainda existissem lobos não fabricados. Porém a presa sou eu. Porque tanto drama?

Olho a parede translúcida do apartamento arredondado. A cidade é o horizonte. Parece estar chovendo. Pelo menos, três quilômetros acima do chão, tantas luzes parecem ser gotículas refletindo sem fim numa floresta molhada, com muitos balões e pássaros passando. Ou então a visão poética de um míope. Eu sei o que está lá fora. Posso revisitar em detalhes, como tópicos num relatório, mas não agora. Há uma cama arrumada deste lado, esperando com o sonho dos órgãos, envolta no perfume milenar de lençóis frescos e travesseiros frios. A cama vermelha e redonda do outro lado está amarrotada, desfeita e até federia à tecnoquímica no meu sangue, se não se limpasse sozinha. Dotada de consciência, desdenharia sua pequena irmã verde, por ser a preferida.

Estou de pé, fingindo não perceber tal fato. Como se flutuasse lá fora, contemplando a cidade, em vez de olhar para a cama, a poltrona e a cozinha embutida. Vamos, Vamos. Sentir a diferença. Eu já devia estar acostumado. Os sapatos se desapertam enquanto passo a linha e a música começa. Suas nuances logo serão apenas vibração sonora, um guia para meu corpo inerte, como o tambor anacrônico de um xamã sintético. Uma satisfação desenha em meu rosto, linhas da acupuntura ativadas para dilatar as narinas e relaxar o corpo. Tudo é ironia. E meus pensamentos baixam os olhos preocupados com isso. Devia mudar o aroma para sândalo. O aroma que anuncia aonde real e virtual são apenas palavras. Uma palavra. A poltrona é de couro preto-violáceo, transgênico. Além da água mineral, um extrato de sementes de pimenta no copo, a guisa de drinque. Reclino-me levemente em todo aquele conforto planejado. Absorvo o quarto com os olhos, expiro e então falo: Queda.

Peptídeos cuidadosamente fabricados se movem para os respectivos encaixes. Moléculas sintéticas adentram aos milhões as fendas sinápticas e hormônios projetados viajam rápido, naquilo tradicionalmente conhecido como sangue. Deviam lhe dar outro nome nestes dias. Agudo açúcar, limão e vinho seco na língua substituindo qualquer gosto. O som escorre por um ralo, sumindo num salto final, zumbindo depois. A pele fica para trás, tudo que sobra de um corpo implodido evapora. Rápida, a amônia vira orvalho e se desfaz no odor de livros novos de papel. No escuro dos olhos, o piscar de um ponto de luz branca se esparrama em um mosaico de cores básicas, que vibram branco antes de se fundirem.

E estou numa campina a perder de vista, açoitada pelo vento frio. Apesar das calças e da grossa blusa comprida, sinto tudo em detalhe, agradável como deve ser. Aqui no ambiente de entrada é um eterno pôr-de-sol. O céu transita suavemente entre o laranja e o violeta. Sou uma mulher cuja face se alterna entre a meia-idade e a juventude. Fico ali olhando o cenário, em devaneio, braços cruzados nas costas. Então caminho até a beira de um abismo, onde começa uma noite escura e estrelada. Lá embaixo, a luz de um luar inexistente, revela detalhes da paisagem. Fico entretido olhando os animalzinhos prateados, pastando a beira de lagoas onde diferentes fases da lua estão refletidas. Ergo a cabeça e pronuncio: Estrutura.

Apesar de ter configurado comandos de voz, tudo é rápido, síncrono, a diferença entre pensar e falar só se nota quando estou indeciso. O cenário detalhado se desconstrói em um fundo branco. Linhas de palavras e números aparecem de todas as direções, cercando a imagem feminina, que se torna um aglomerado de formas geométricas. Colunas, vigas de imagens compactas e alternantes me cercam, um cilindro de idioma gira lentamente como um anúncio. A imagem do quarto com meu corpo deitado se repete em quatro paredes, estática. Ali, em algum lugar, indicadores corporais cumprem sua função informativa de modo belo. O som é de sementes descendo por um tubo de bambu. Ícones diversos flutuam. A estrela de cinco pontas vem até mim, do meio do cubismo da interface, seu pentágono central aumentando, até o tamanho de uma grande porta negra. Atravesso, deixando para trás o avatar surreal da mulher, ouvindo música e trabalhando em pinturas tridimensionais interativas, editando fotografias. O pentágono encolhe, deixando a visão surreal para trás. A mesma imagem que qualquer sistema de rastreio irá encontrar, caso me sonde hoje.

A verdadeira satisfação vem quando abandono os pensamentos excessivamente sensíveis do artista gráfico, sua hesitação ensaiada, suas metáforas românticas. Relaxo da disciplina de fazer-se inofensivo. Avanço na escuridão e os retângulos brilhantes vão surgindo como quadros em um interminável corredor. O primeiro á minha direita é um blog técnico, programação de personalidades artificiais. Focalizo na mente novidades na área e linhas vão se preenchendo no retângulo com minhas novas dicas. Ao mesmo tempo viro para o retângulo da esquerda e escrevo o novo capítulo do romance periódico que contribui com parte do meu financiamento: Uma inteligência artificial apaixonada por humanos, perseguida por seus criadores, navegando entre amores frustrados e hardwares precários em busca de um lugar ao sol. O estilo das novelas dos anos cinqüenta do século vinte caiu bem na narrativa.

Atualizo um blog sobre bonsai, outro sobre a engenharia de grandes pontes, revejo a programação criativa dos bots que cuidam dos meus outros periódicos, modifico o comportamento da psicóloga virtual da minha sala de aconselhamento afetivo, enquanto consulto minha agenda financeira. Ao término dos trinta segundos dedico-me ao contrato da vez. Um tubo cristalino que começa a fluir ao meu lado é a rede privada de cirurgia á distância. Minha identidade de IA consultiva já está logada. Visto-a como luvas descartáveis. Na lista de cirurgias disponíveis localizo uma extração de tumor, começando agora. Nenhuma restrição de audiência. Logo estou lá, a velocidade de acesso da IA não deixa perceptível nenhuma transição. O acesso aos sensores da sala é como uma cacofonia de orquestras afinando. Limito a percepção á apenas o corpo feminino nu deitado na mesa e o braço robótico cirurgião, ambos flutuando em um negro vazio.

O braço está abrindo o Abdômen. Contemplo a beleza juvenil da moça de quarenta e seis anos, sua pele sem falhas, enquanto acesso o cirurgião. Apenas uma interação de aprendizado entre sistemas especialistas. Coloco os sensores do compartimento de fármacos em retro alimentação de sinais. Em millisegundos, junto com a anestesia e os anticoagulantes, moléculas desenhadas para reagir ao meu tom de voz e liberar a passagem de ferormônios hipnagógicos estão no sangue dela, aguardando apenas o encontro desta noite. Além de o clássico jantar á luz de velas, uma interação mais íntima será necessária, para baixar as defesas da encarregada da comissão de investimentos e fechar o contrato. A companhia paga bem por negociações arranjadas, e velhos métodos, nos dias de hoje, nunca foram mais eficazes.

Derrubados os sistemas de segurança, só restará a ela a boa e velha força de vontade. E um desafio de vez em quando é uma bem vinda felicidade em um mundo tão previsível. Vou torcer. Quem sabe seja ela?

Abandono a rede de cirurgia e o cheiro de anti-séptico. Vou voltando ao avatar do artista com um sorriso interno. Sintonizo quem está sonhando ligado ao sistema de aprendizagem noturna e insiro um velho número de sapateado. Grande parte da cidade vai cantarolar a melodia durante a semana. Provavelmente vai tocar no restaurante. Os sonhadores são pequenas miniaturas de luz debaixo de um chão de vidro negro e vou dançando por sobre eles, enquanto saio do ambiente criptografado. Vai querida tenha força, tenha fibra, dance docinho. Sei que estou tirando vantagem de você. Faça seu homem feliz. Seja minha melhor garota, não me desaponte. Estou chegando Virgínia… Penso na minha farsa de artista, lembro de toda tecnologia no correndo no meu sangue. É uma pena querida, mas já vão anos e anos sem nenhum homem doce…

Cubo Mágico

Ele Olhou para os dois homens de terno se aproximando. Um magro de cabelos castanhos curtos, ajeitando a gravata de um jeito ensaiado e cansativamente icônico, o outro, cabelos pretos encobrindo a nuca, mais alto e musculoso que o primeiro, um “gorilão limpinho”. Fora um corte retrô-futurista nas roupas, eles eram um clichê chegando ao beco. O magro afastou o terno no peito, como quem vai sacar uma arma ou um cigarro. Com um olhar explodi os dois contra a parede. Os pedaços do magro ficaram no chão, os do outro começaram a ficar azuis e fluíram para um molde de um novo corpo. O demônio de Ashencroft tomou forma, inicialmente nu. Sua pele começou a escurecer para o azul marinho e inchar abaixo do pescoço, até que um novo terno se formou. Ele alongou o pescoço enquanto os chifres terminavam de se curvar e gesticulou rapidamente com os três dedos da mão direita, um cigarro surgiu flutuando dentro de uma pequena esfera transparente e perfeita. Ele puxou a mão de volta e pegou o cigarro elegantemente, que acendeu em contato com o ar. Deu uma tragada e andou dois passos, e percebi que não notara se ele tinha cascos ou pés. E nesse momento me dei conta que não lembrava por que estava ali.

– Mas que modos senhor Geist, só viemos conversar, quer dizer…

Comprimi-o até o tamanho de uma bola de basquete e um segundo depois, de tênis. A cena foi semelhante á primeira, só a bola de carne azul parada no ar escorreu mais rápido.

– Você terá que usar de meios mais efetivos se quiser me destruir permanentemente…

Pensei em fogo e ele se incendiou instantaneamente. As chamas brancas foram ficando azuis, delas emergindo o mesmo demônio de Ashencroft. Já tinha outro cigarro na mão e a última labareda o acendeu antes de sumir. Ele ajeitou a gravata de riscas azuis e brancas.

– Francamente senhor Geist…

Era tudo tão natural para mim, menos aquele branco na mente. Eu devia estar ali? O próprio cenário estava todo errado. Eu era William Geist e trabalhava com programação de ambientes virtuais extremos. Mas… Será possível?

– Bom, se você me permite, tenho uma proposta…

Pare e apenas pense. Que diabos é um demônio de Ashencroft? E como eu sabia disso?

Subitamente percebi letras quase apagadas, como vidro néon surgindo no ar ao lado do ombro dele. Eram azuis e diziam Ashencroft. A fumaça do cigarro dele as destacou por uma última vez e elas ficaram invisíveis de novo.

– Precisamos de um homem com seus talentos. Por mais que esteja perdido, não há necessidade de passar sua vida aqui como um mendigo…

Letras no ar… Hum. Eu devia estar jogando algum RPG imersivo. Meu passatempo preferido, isso eu sabia, apesar da falta de consistência em outras lembranças da minha vida. Olhei para minhas mãos. Aproximei a direita e prestei atenção nos detalhes. Nenhuma rebarba. Tinha cheiro de pele. Apertei-a. Meu corpo era bem sólido. O cenário não possuía nenhuma distorção. A luz se derramava da faixa de céu azul entre os prédios do beco, iluminado a poeira que subia e as marcas no rosto do demônio, os anéis cinza claro de seus chifres curvos.

Nossa. Quantos processadores gráficos eu tinha em casa?

– Há certo lugar onde sua presença se faz necessária senhor Geist, para, digamos, manter a coerência do cenário…

Bem, era um jogo? Teria travado comigo dentro? Difícil. Há sistemas de segurança pra esses casos. Tentei chamar menus e nada, podiam estar rodando em segundo plano. Apenas pense. Eu estava em primeira pessoa, melhor tentar uma mudança de perspectiva Com uma súbita leveza, sai do meu corpo para cima, olhando a própria nuca por trás, até ficar uns cinco metros de mim. O demônio olhava nos meus olhos.

-… Há certos elementos que não… Ah, exibindo seu corpo etérico, claro, claro. Que gentil. Por sinal, espíritos também não me afetam…

Comandei meu corpo para a parede da direita. Ele trombou com ela. Fique encostado. Nenhuma sobreposição do cenário ao modelo… Que coisa. Caminhei ao redor do demônio, ele não parava de falar. Andei para quase fora do beco, ele me seguiu, ainda falando. Parecia um comportamento típico de personagem. Uma seqüência cinemática interativa antes de uma missão. Bem óbvio. Se fosse um jogo on-line eu já teria sido desconectado nos primeiros segundos do travamento. Chamar menu de novo. Nada. A insubstancialidade não apresentou nenhuma vantagem nesse quesito. O hábito era jogar com amigos. Seria um projeto levado para casa?

– Senhor Geist, não deve ser tão difícil me escutar, ainda mais dividido em dois…

Comentários irônicos. Velho recurso na construção de comportamentos automáticos de personagem. Nenhum grande atrativo até agora, neste jogo. Porcaria de bug. Gritei pelo suporte técnico, talvez a voz funcionasse. Nada. Calma, lembre, lembre… Mas o que? Uma vida pacata. Só isso. Nenhuma explicação para aquele momento. Só frases do manual de segurança: O jogo não é uma viagem sem retorno. Um usuário sempre volta. Nenhum programa consegue se sobrepor permanentemente aos sentidos do usuário. Saber de tudo isso não adiantava nada.

– Um homem com suas “qualidades”, pode resolver essa situação facilmente…

Olhei para o demônio. Ele era parte de um enredo particular de um cenário inexistente. Reentrei no corpo sem perceber nenhum novo detalhe da situação. Façamos algo novo. Ergo o indicador e médio da mão esquerda, desenho com eles. A criatura azulada pára por um momento e ondula. Cada molécula do corpo dele se afasta. Com um gesto elas viram uma espiral e saltam em alta velocidade para o fundo do beco. Onde se concentram em um ponto microscópico. Um flash de luz, uma pequena explosão sacode o beco e seu tremor racha um pouco as paredes. Um fugaz buraco negro, ou pelo menos seu equivalente dentro da física local. Aparentemente o defeito no sistema me deu acesso privilegiado ao controle da “matéria” naquele programa. Nada muito útil.

Segui a rua. Não era uma cidade que eu conhecesse. Parecia desenvolvida com elementos de várias cidades reais. E era bonita na sua realidade. Um pensamento triste. Eu não queria gostar dali. Podia perder o foco da situação. Não havia ninguém por perto para testemunhar o incidente na boca do beco, conveniências do roteiro. As pessoas me evitavam. Minhas roupas tinham semanas de uso e estavam cobertas de poeira assim como minha cara barbada. Tinha a impressão de ter passado um mês sentado naquele beco. Ironicamente a reação do público dava consistência ao momento. Virei á esquerda na próxima rua e desci uma ladeira que terminava em um molhe. Sentei na beirada olhando o mar, as pedras da praia e os pássaros. O corpo sentira a caminhada. Que droga. Tinha de haver uma saída. Como em resposta, no céu ideogramas chineses foram aparecendo. Olhou as letras durante um bom tempo até perceber que não sabia chinês. Esqueceram de traduzir essa parte. Pirataria meia boca.

Alguém se aproximou. Eu já sabia quem era.

– E agora senhor Geist, boa hora para uma conversa sem compromisso?

O demônio azul estava ali, mesmo figurino, mesmo cigarro. Não podia ser um jogo mesmo. A menção ao fumo havia sido abolida fazia décadas. E havia as tripas quando eles explodiram. Detalhes violentos demais.

– Porque não reparte o peso de suas preocupações comigo? Qual a causa dessa sensação de irrealidade que lhe atormenta?

– Lê pensamentos?

– Apenas auras senhor Geist, auras. A sua é muito interessante e bem expressiva, eu diria.

Então ele é uma IA. Elas eram cada vez mais comuns em RPG imersivos. Talvez um papo levantasse soluções possíveis ao dilema. Ou gerasse a discrepância necessária para um travamento total da simulação, o que poderia levar a algum lugar.

-… Hum… O senhor está preso em uma realidade simulada então? Não creio embora isso talvez não faça diferença, pois nem sei se sou capaz de perceber tal sutileza do universo onde estamos. Mas sabe, não vejo a importância disso, pois até você não tem certeza. Porque não viver o momento, aproveitar um mundo onde você tem poderes e pode usá-los para o bem da humanidade ou para ajudar aqueles como eu, preocupados com a manutanção da realidade como um todo…

– Poderes? Ah. Isto é uma história em quadrinhos então?

– Olhe William, é uma ótica, tão válida quanto a sua. Não sei, pode ser. Trabalho com vários seres diferentes e todos enxergam o mundo de uma forma particular. Muitos vivem em universos próprios. Alguns literalmente. Mas isso nunca nos impediu de trabalhar em equipe. Venha comigo para Ashencroft. Lá você verá isso com seus próprios olhos e quem sabe encontrará opiniões mais esclarecidas para a sua situação. Que tal.

Tão típico. Definitivamente quadrinhos. Não, uma ambientação de jogo em um mundo de super-heróis. Era o fim. Ou uma brincadeira sem graça de alguém. Ele nem gostava do gênero. Tudo estava a ponto de ficar mais e mais pueril e isso seria ainda mais insuportável. Ou talvez trouxesse à tona uma falha estrutural, uma brecha para escapar aquele cenário. Ao menos faria o tempo passar.

– O que é Ashencroft?

– Uma propriedade que se conecta a uma dimensão abandonada, formada por um único floco da caspa de Bahamut.

– Ah. Que empolgante. Imagine se ele tivesse perdido um pêlo do bigode. Teríamos o fantástico subplano da queratina.

– Na verdade isso já aconteceu. Mais de uma vez.

– Não me conte. Quando for a hora eu finjo a surpresa. A propósito, você é uma quebra de copyright.

– No máximo uma homenagem senhor Geist, apenas uma homenagem… Você entenderá quando entrar no clima. Venha, vou lhe arranjar roupas novas. Aproveitando o ensejo, você poderia pensar em um codinome. Eu sou o Casco Azul.

Codinome… De volta a infância.

– Pocotó, pocotó. Foi você mesmo que escolheu?

– Não, há toda uma história por trás disso. E essa piada do cavalo já era esperada.

– Você não se ofende com isso? É um demônio ou um rato?

– Senhor Geist, esse tratamento informal e ironias humanas não significam nada para mim. São maneiras leves de encarar conceitos demasiado devastadores para a humanidade compreender. Codinome?

– Ah. Fácil. Sudo Su.

– Sudoku? Conheço, é bem legal!

– Não, nada a ver.

– Hum, seu nome em Japonês?

– Quem sabe.

E sorrindo ele seguiu contra a luz do pôr do sol. Abaixo do final de tarde novas letras transparentes foram surgindo:

Molhe norte, 18:30, entardecer…

Bebel Doll

Meia luz, a voz de Sade preenchendo o ambiente e se fazendo sentir através dos ossos sintéticos dos andróides, ela geme e o elogia enquanto ele sussurra em francês na sua orelha, o clímax se aproxima…

DZUTT!IUMMmm

Ai!

O peso de um andróide o prende contra o outro. Desconfortável e dolorido ele grita:

Suporte técnico!

A música é substituída por voz feminina grave e profunda:

Boa noite senhor, nosso sistema de posicionamento global do cliente detectou que o senhor se encontra preso entre dois de nossos Dolls. O senhor está bem? É necessário o envio de uma equipe médica?

Não, não é o caso.

Tudo bem senhor, como os Dolls não estão respondendo ao acionamento remoto, mandaremos um técnico ao local.

Ei, espera aí!

Nosso técnico é um Doll especialista senhor, existe apenas para manutenção, suas preferências sexuais para ele nada significam, assim como para mim. Ele é incapaz de fazer algum comentário inapropriado.

Ah tá.

Dez Minutos depois…

Boa noite senhor.

Finalmente!!

Já lhe retiro daí. (pressiona as válvulas pneumáticas de emergência e desacopla os Dolls.)

Vejo pela minha análise sem fio que o senhor andou baixando da internet pacotes personalizados de modificação de comportamento nos seus Dolls. Ele era originalmente hetero e ela homossexual. A garantia Bebel Doll não cobre…

Ta, mas não pode só esse o defeito, faço isso toda hora.

Senhor, a mudança de orientação sexual dos Dolls modificou parâmetros na área de senso crítico do sistema de personalidade de ambos. Um ou mais fatores ambientais forneceram o gatilho psicológico que desligou seus andróides por paradoxo sensível.

Nossa! Mas o que poderia ser?

Deixe-me ver… Ah, a uma entrada comum no log do sistema de ambos, no registro do campo visual, antes do desligamento.

O que foi???

Ali senhor, esses dois bonecos de pelúcia na cabeceira da cama.

O Doll técnico aponta para uma Hello Kitty e um macaco Murphy de mãos dadas, em frente a uma enorme almofada de coração com estampa de zebra.

Corrigindo, na verdade foi a imagem da cabeceira da cama como um todo, que em determinado momento foi percebida em segundo plano e ocasionou o conflito. Mas não se preocupe, já estão consertados. Será cobrada uma taxa pela reinstalação do sistema, devido ás modificações irregulares. Quer eles com novas orientações sexuais senhor?

Manchete do dia seguinte:

Usuário processa Bebel Doll por comentário de Andróide do suporte técnico

“Discriminaram-me só porque sou fetichista!”

Hackers fetichistas derrubam o site da Bebel Doll.

Passeata dos fãs de bichos de pelúcia pelo respeito ás diferenças.

“Uma pouca vergonha que na nossa época esse tipo de discriminação ainda aconteça!”

Em blog voltado pra Dolls técnico se defende: “Foi apenas um comentário técnico, desprovido de emoção e não pejorativo.