Cubo Mágico

Ele Olhou para os dois homens de terno se aproximando. Um magro de cabelos castanhos curtos, ajeitando a gravata de um jeito ensaiado e cansativamente icônico, o outro, cabelos pretos encobrindo a nuca, mais alto e musculoso que o primeiro, um “gorilão limpinho”. Fora um corte retrô-futurista nas roupas, eles eram um clichê chegando ao beco. O magro afastou o terno no peito, como quem vai sacar uma arma ou um cigarro. Com um olhar explodi os dois contra a parede. Os pedaços do magro ficaram no chão, os do outro começaram a ficar azuis e fluíram para um molde de um novo corpo. O demônio de Ashencroft tomou forma, inicialmente nu. Sua pele começou a escurecer para o azul marinho e inchar abaixo do pescoço, até que um novo terno se formou. Ele alongou o pescoço enquanto os chifres terminavam de se curvar e gesticulou rapidamente com os três dedos da mão direita, um cigarro surgiu flutuando dentro de uma pequena esfera transparente e perfeita. Ele puxou a mão de volta e pegou o cigarro elegantemente, que acendeu em contato com o ar. Deu uma tragada e andou dois passos, e percebi que não notara se ele tinha cascos ou pés. E nesse momento me dei conta que não lembrava por que estava ali.

– Mas que modos senhor Geist, só viemos conversar, quer dizer…

Comprimi-o até o tamanho de uma bola de basquete e um segundo depois, de tênis. A cena foi semelhante á primeira, só a bola de carne azul parada no ar escorreu mais rápido.

– Você terá que usar de meios mais efetivos se quiser me destruir permanentemente…

Pensei em fogo e ele se incendiou instantaneamente. As chamas brancas foram ficando azuis, delas emergindo o mesmo demônio de Ashencroft. Já tinha outro cigarro na mão e a última labareda o acendeu antes de sumir. Ele ajeitou a gravata de riscas azuis e brancas.

– Francamente senhor Geist…

Era tudo tão natural para mim, menos aquele branco na mente. Eu devia estar ali? O próprio cenário estava todo errado. Eu era William Geist e trabalhava com programação de ambientes virtuais extremos. Mas… Será possível?

– Bom, se você me permite, tenho uma proposta…

Pare e apenas pense. Que diabos é um demônio de Ashencroft? E como eu sabia disso?

Subitamente percebi letras quase apagadas, como vidro néon surgindo no ar ao lado do ombro dele. Eram azuis e diziam Ashencroft. A fumaça do cigarro dele as destacou por uma última vez e elas ficaram invisíveis de novo.

– Precisamos de um homem com seus talentos. Por mais que esteja perdido, não há necessidade de passar sua vida aqui como um mendigo…

Letras no ar… Hum. Eu devia estar jogando algum RPG imersivo. Meu passatempo preferido, isso eu sabia, apesar da falta de consistência em outras lembranças da minha vida. Olhei para minhas mãos. Aproximei a direita e prestei atenção nos detalhes. Nenhuma rebarba. Tinha cheiro de pele. Apertei-a. Meu corpo era bem sólido. O cenário não possuía nenhuma distorção. A luz se derramava da faixa de céu azul entre os prédios do beco, iluminado a poeira que subia e as marcas no rosto do demônio, os anéis cinza claro de seus chifres curvos.

Nossa. Quantos processadores gráficos eu tinha em casa?

– Há certo lugar onde sua presença se faz necessária senhor Geist, para, digamos, manter a coerência do cenário…

Bem, era um jogo? Teria travado comigo dentro? Difícil. Há sistemas de segurança pra esses casos. Tentei chamar menus e nada, podiam estar rodando em segundo plano. Apenas pense. Eu estava em primeira pessoa, melhor tentar uma mudança de perspectiva Com uma súbita leveza, sai do meu corpo para cima, olhando a própria nuca por trás, até ficar uns cinco metros de mim. O demônio olhava nos meus olhos.

-… Há certos elementos que não… Ah, exibindo seu corpo etérico, claro, claro. Que gentil. Por sinal, espíritos também não me afetam…

Comandei meu corpo para a parede da direita. Ele trombou com ela. Fique encostado. Nenhuma sobreposição do cenário ao modelo… Que coisa. Caminhei ao redor do demônio, ele não parava de falar. Andei para quase fora do beco, ele me seguiu, ainda falando. Parecia um comportamento típico de personagem. Uma seqüência cinemática interativa antes de uma missão. Bem óbvio. Se fosse um jogo on-line eu já teria sido desconectado nos primeiros segundos do travamento. Chamar menu de novo. Nada. A insubstancialidade não apresentou nenhuma vantagem nesse quesito. O hábito era jogar com amigos. Seria um projeto levado para casa?

– Senhor Geist, não deve ser tão difícil me escutar, ainda mais dividido em dois…

Comentários irônicos. Velho recurso na construção de comportamentos automáticos de personagem. Nenhum grande atrativo até agora, neste jogo. Porcaria de bug. Gritei pelo suporte técnico, talvez a voz funcionasse. Nada. Calma, lembre, lembre… Mas o que? Uma vida pacata. Só isso. Nenhuma explicação para aquele momento. Só frases do manual de segurança: O jogo não é uma viagem sem retorno. Um usuário sempre volta. Nenhum programa consegue se sobrepor permanentemente aos sentidos do usuário. Saber de tudo isso não adiantava nada.

– Um homem com suas “qualidades”, pode resolver essa situação facilmente…

Olhei para o demônio. Ele era parte de um enredo particular de um cenário inexistente. Reentrei no corpo sem perceber nenhum novo detalhe da situação. Façamos algo novo. Ergo o indicador e médio da mão esquerda, desenho com eles. A criatura azulada pára por um momento e ondula. Cada molécula do corpo dele se afasta. Com um gesto elas viram uma espiral e saltam em alta velocidade para o fundo do beco. Onde se concentram em um ponto microscópico. Um flash de luz, uma pequena explosão sacode o beco e seu tremor racha um pouco as paredes. Um fugaz buraco negro, ou pelo menos seu equivalente dentro da física local. Aparentemente o defeito no sistema me deu acesso privilegiado ao controle da “matéria” naquele programa. Nada muito útil.

Segui a rua. Não era uma cidade que eu conhecesse. Parecia desenvolvida com elementos de várias cidades reais. E era bonita na sua realidade. Um pensamento triste. Eu não queria gostar dali. Podia perder o foco da situação. Não havia ninguém por perto para testemunhar o incidente na boca do beco, conveniências do roteiro. As pessoas me evitavam. Minhas roupas tinham semanas de uso e estavam cobertas de poeira assim como minha cara barbada. Tinha a impressão de ter passado um mês sentado naquele beco. Ironicamente a reação do público dava consistência ao momento. Virei á esquerda na próxima rua e desci uma ladeira que terminava em um molhe. Sentei na beirada olhando o mar, as pedras da praia e os pássaros. O corpo sentira a caminhada. Que droga. Tinha de haver uma saída. Como em resposta, no céu ideogramas chineses foram aparecendo. Olhou as letras durante um bom tempo até perceber que não sabia chinês. Esqueceram de traduzir essa parte. Pirataria meia boca.

Alguém se aproximou. Eu já sabia quem era.

– E agora senhor Geist, boa hora para uma conversa sem compromisso?

O demônio azul estava ali, mesmo figurino, mesmo cigarro. Não podia ser um jogo mesmo. A menção ao fumo havia sido abolida fazia décadas. E havia as tripas quando eles explodiram. Detalhes violentos demais.

– Porque não reparte o peso de suas preocupações comigo? Qual a causa dessa sensação de irrealidade que lhe atormenta?

– Lê pensamentos?

– Apenas auras senhor Geist, auras. A sua é muito interessante e bem expressiva, eu diria.

Então ele é uma IA. Elas eram cada vez mais comuns em RPG imersivos. Talvez um papo levantasse soluções possíveis ao dilema. Ou gerasse a discrepância necessária para um travamento total da simulação, o que poderia levar a algum lugar.

-… Hum… O senhor está preso em uma realidade simulada então? Não creio embora isso talvez não faça diferença, pois nem sei se sou capaz de perceber tal sutileza do universo onde estamos. Mas sabe, não vejo a importância disso, pois até você não tem certeza. Porque não viver o momento, aproveitar um mundo onde você tem poderes e pode usá-los para o bem da humanidade ou para ajudar aqueles como eu, preocupados com a manutanção da realidade como um todo…

– Poderes? Ah. Isto é uma história em quadrinhos então?

– Olhe William, é uma ótica, tão válida quanto a sua. Não sei, pode ser. Trabalho com vários seres diferentes e todos enxergam o mundo de uma forma particular. Muitos vivem em universos próprios. Alguns literalmente. Mas isso nunca nos impediu de trabalhar em equipe. Venha comigo para Ashencroft. Lá você verá isso com seus próprios olhos e quem sabe encontrará opiniões mais esclarecidas para a sua situação. Que tal.

Tão típico. Definitivamente quadrinhos. Não, uma ambientação de jogo em um mundo de super-heróis. Era o fim. Ou uma brincadeira sem graça de alguém. Ele nem gostava do gênero. Tudo estava a ponto de ficar mais e mais pueril e isso seria ainda mais insuportável. Ou talvez trouxesse à tona uma falha estrutural, uma brecha para escapar aquele cenário. Ao menos faria o tempo passar.

– O que é Ashencroft?

– Uma propriedade que se conecta a uma dimensão abandonada, formada por um único floco da caspa de Bahamut.

– Ah. Que empolgante. Imagine se ele tivesse perdido um pêlo do bigode. Teríamos o fantástico subplano da queratina.

– Na verdade isso já aconteceu. Mais de uma vez.

– Não me conte. Quando for a hora eu finjo a surpresa. A propósito, você é uma quebra de copyright.

– No máximo uma homenagem senhor Geist, apenas uma homenagem… Você entenderá quando entrar no clima. Venha, vou lhe arranjar roupas novas. Aproveitando o ensejo, você poderia pensar em um codinome. Eu sou o Casco Azul.

Codinome… De volta a infância.

– Pocotó, pocotó. Foi você mesmo que escolheu?

– Não, há toda uma história por trás disso. E essa piada do cavalo já era esperada.

– Você não se ofende com isso? É um demônio ou um rato?

– Senhor Geist, esse tratamento informal e ironias humanas não significam nada para mim. São maneiras leves de encarar conceitos demasiado devastadores para a humanidade compreender. Codinome?

– Ah. Fácil. Sudo Su.

– Sudoku? Conheço, é bem legal!

– Não, nada a ver.

– Hum, seu nome em Japonês?

– Quem sabe.

E sorrindo ele seguiu contra a luz do pôr do sol. Abaixo do final de tarde novas letras transparentes foram surgindo:

Molhe norte, 18:30, entardecer…

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