Um Homem Doce

Devia fazer sentido. Olhar aquela linha divisória e tomar uma decisão. Fato encadeado e de conseqüências óbvias. É tão simples de usar, até perde o sentido. Nem mesmo uma linha divisória ou aquelas cores diferentes seriam necessárias, quando um aroma entre metal eletrificado e grama molhada deixa um sutil arrepio no corpo inteiro e um calor invade o abdômen. Diferentes sensações, diferentes acessos. Os rodízios do banquinho redondo estão repousando agora, seus movimentos cessaram a ausência de razão em tudo o que há. No entanto, no eixo entre meus pés paralelos, meus cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, há o anúncio de salto adiado. Como só um lobo seria capaz, se ainda existissem lobos não fabricados. Porém a presa sou eu. Porque tanto drama?

Olho a parede translúcida do apartamento arredondado. A cidade é o horizonte. Parece estar chovendo. Pelo menos, três quilômetros acima do chão, tantas luzes parecem ser gotículas refletindo sem fim numa floresta molhada, com muitos balões e pássaros passando. Ou então a visão poética de um míope. Eu sei o que está lá fora. Posso revisitar em detalhes, como tópicos num relatório, mas não agora. Há uma cama arrumada deste lado, esperando com o sonho dos órgãos, envolta no perfume milenar de lençóis frescos e travesseiros frios. A cama vermelha e redonda do outro lado está amarrotada, desfeita e até federia à tecnoquímica no meu sangue, se não se limpasse sozinha. Dotada de consciência, desdenharia sua pequena irmã verde, por ser a preferida.

Estou de pé, fingindo não perceber tal fato. Como se flutuasse lá fora, contemplando a cidade, em vez de olhar para a cama, a poltrona e a cozinha embutida. Vamos, Vamos. Sentir a diferença. Eu já devia estar acostumado. Os sapatos se desapertam enquanto passo a linha e a música começa. Suas nuances logo serão apenas vibração sonora, um guia para meu corpo inerte, como o tambor anacrônico de um xamã sintético. Uma satisfação desenha em meu rosto, linhas da acupuntura ativadas para dilatar as narinas e relaxar o corpo. Tudo é ironia. E meus pensamentos baixam os olhos preocupados com isso. Devia mudar o aroma para sândalo. O aroma que anuncia aonde real e virtual são apenas palavras. Uma palavra. A poltrona é de couro preto-violáceo, transgênico. Além da água mineral, um extrato de sementes de pimenta no copo, a guisa de drinque. Reclino-me levemente em todo aquele conforto planejado. Absorvo o quarto com os olhos, expiro e então falo: Queda.

Peptídeos cuidadosamente fabricados se movem para os respectivos encaixes. Moléculas sintéticas adentram aos milhões as fendas sinápticas e hormônios projetados viajam rápido, naquilo tradicionalmente conhecido como sangue. Deviam lhe dar outro nome nestes dias. Agudo açúcar, limão e vinho seco na língua substituindo qualquer gosto. O som escorre por um ralo, sumindo num salto final, zumbindo depois. A pele fica para trás, tudo que sobra de um corpo implodido evapora. Rápida, a amônia vira orvalho e se desfaz no odor de livros novos de papel. No escuro dos olhos, o piscar de um ponto de luz branca se esparrama em um mosaico de cores básicas, que vibram branco antes de se fundirem.

E estou numa campina a perder de vista, açoitada pelo vento frio. Apesar das calças e da grossa blusa comprida, sinto tudo em detalhe, agradável como deve ser. Aqui no ambiente de entrada é um eterno pôr-de-sol. O céu transita suavemente entre o laranja e o violeta. Sou uma mulher cuja face se alterna entre a meia-idade e a juventude. Fico ali olhando o cenário, em devaneio, braços cruzados nas costas. Então caminho até a beira de um abismo, onde começa uma noite escura e estrelada. Lá embaixo, a luz de um luar inexistente, revela detalhes da paisagem. Fico entretido olhando os animalzinhos prateados, pastando a beira de lagoas onde diferentes fases da lua estão refletidas. Ergo a cabeça e pronuncio: Estrutura.

Apesar de ter configurado comandos de voz, tudo é rápido, síncrono, a diferença entre pensar e falar só se nota quando estou indeciso. O cenário detalhado se desconstrói em um fundo branco. Linhas de palavras e números aparecem de todas as direções, cercando a imagem feminina, que se torna um aglomerado de formas geométricas. Colunas, vigas de imagens compactas e alternantes me cercam, um cilindro de idioma gira lentamente como um anúncio. A imagem do quarto com meu corpo deitado se repete em quatro paredes, estática. Ali, em algum lugar, indicadores corporais cumprem sua função informativa de modo belo. O som é de sementes descendo por um tubo de bambu. Ícones diversos flutuam. A estrela de cinco pontas vem até mim, do meio do cubismo da interface, seu pentágono central aumentando, até o tamanho de uma grande porta negra. Atravesso, deixando para trás o avatar surreal da mulher, ouvindo música e trabalhando em pinturas tridimensionais interativas, editando fotografias. O pentágono encolhe, deixando a visão surreal para trás. A mesma imagem que qualquer sistema de rastreio irá encontrar, caso me sonde hoje.

A verdadeira satisfação vem quando abandono os pensamentos excessivamente sensíveis do artista gráfico, sua hesitação ensaiada, suas metáforas românticas. Relaxo da disciplina de fazer-se inofensivo. Avanço na escuridão e os retângulos brilhantes vão surgindo como quadros em um interminável corredor. O primeiro á minha direita é um blog técnico, programação de personalidades artificiais. Focalizo na mente novidades na área e linhas vão se preenchendo no retângulo com minhas novas dicas. Ao mesmo tempo viro para o retângulo da esquerda e escrevo o novo capítulo do romance periódico que contribui com parte do meu financiamento: Uma inteligência artificial apaixonada por humanos, perseguida por seus criadores, navegando entre amores frustrados e hardwares precários em busca de um lugar ao sol. O estilo das novelas dos anos cinqüenta do século vinte caiu bem na narrativa.

Atualizo um blog sobre bonsai, outro sobre a engenharia de grandes pontes, revejo a programação criativa dos bots que cuidam dos meus outros periódicos, modifico o comportamento da psicóloga virtual da minha sala de aconselhamento afetivo, enquanto consulto minha agenda financeira. Ao término dos trinta segundos dedico-me ao contrato da vez. Um tubo cristalino que começa a fluir ao meu lado é a rede privada de cirurgia á distância. Minha identidade de IA consultiva já está logada. Visto-a como luvas descartáveis. Na lista de cirurgias disponíveis localizo uma extração de tumor, começando agora. Nenhuma restrição de audiência. Logo estou lá, a velocidade de acesso da IA não deixa perceptível nenhuma transição. O acesso aos sensores da sala é como uma cacofonia de orquestras afinando. Limito a percepção á apenas o corpo feminino nu deitado na mesa e o braço robótico cirurgião, ambos flutuando em um negro vazio.

O braço está abrindo o Abdômen. Contemplo a beleza juvenil da moça de quarenta e seis anos, sua pele sem falhas, enquanto acesso o cirurgião. Apenas uma interação de aprendizado entre sistemas especialistas. Coloco os sensores do compartimento de fármacos em retro alimentação de sinais. Em millisegundos, junto com a anestesia e os anticoagulantes, moléculas desenhadas para reagir ao meu tom de voz e liberar a passagem de ferormônios hipnagógicos estão no sangue dela, aguardando apenas o encontro desta noite. Além de o clássico jantar á luz de velas, uma interação mais íntima será necessária, para baixar as defesas da encarregada da comissão de investimentos e fechar o contrato. A companhia paga bem por negociações arranjadas, e velhos métodos, nos dias de hoje, nunca foram mais eficazes.

Derrubados os sistemas de segurança, só restará a ela a boa e velha força de vontade. E um desafio de vez em quando é uma bem vinda felicidade em um mundo tão previsível. Vou torcer. Quem sabe seja ela?

Abandono a rede de cirurgia e o cheiro de anti-séptico. Vou voltando ao avatar do artista com um sorriso interno. Sintonizo quem está sonhando ligado ao sistema de aprendizagem noturna e insiro um velho número de sapateado. Grande parte da cidade vai cantarolar a melodia durante a semana. Provavelmente vai tocar no restaurante. Os sonhadores são pequenas miniaturas de luz debaixo de um chão de vidro negro e vou dançando por sobre eles, enquanto saio do ambiente criptografado. Vai querida tenha força, tenha fibra, dance docinho. Sei que estou tirando vantagem de você. Faça seu homem feliz. Seja minha melhor garota, não me desaponte. Estou chegando Virgínia… Penso na minha farsa de artista, lembro de toda tecnologia no correndo no meu sangue. É uma pena querida, mas já vão anos e anos sem nenhum homem doce…

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    • Cris
    • 2 agosto, 2008

    Por isso que eu digo, esse papo de avatares virtuais é tão transcedental!…

    Adorei, D.
    Beijos

    • Demian
    • 29 novembro, 2008

    Este aqui também surgiu de uma idéia indefinida após algumas leituras sobre tecnologia e ficou um bom tempo mofando na pasta dos incompletos até ser refeito e finalmente publicado aqui. A história original estava correndo o risco de transformar-se em uma prosa poética de baixíssimo escalão.

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