Enquanto Isso na Boate

Um lampejo laranja ofuscante e escuridão. Escuridão total. O silêncio abafado de um espaço pequeno envolve. Nada, nenhum pensamento ou lembrança, esclarece o acontecido. Mas o olho se acostuma, sensível à ausência de luz e ele tateia o grande retângulo à frente, até esbarrar em um dispositivo que ilumina o cubículo.

Que estranho aposento! Estantes metálicas nas paredes, forradas com caixas coloridas de vários tamanhos, envoltas em desenhos coloridos, de seres bizarros e personagens épicos, empunhando espadas ou bacamartes incomuns. E também placas de aparência metálica e fios azuis, além de objetos inidentificáveis para o ser ali presente.

Entre todos estes, dois itens se destacam como se tivessem luz própria, perfeitamente familiares. Uma faca prateada até o cabo, pequena, com uma lâmina de base larga, a partir da qual o desenho de uma chave se espalha. Uma chave composta de dentes retilíneos e paralelos, gravada nos dois lados da lâmina. O outro é um pequeno livro vermelho, com capa e lombada lisas. Novo, porém estranhamente velho, é a sensação que causa. Aberto na primeira página, quase em branco, ou melhor, vermelho, ele vê em quadrados, linhas, pontos, signos ilegíveis. Mas eles se movem! Aos poucos fica legível a única frase da página: Pegue a faca e o livro, abra a porta e saia. Apague a luz antes.

As instruções são praticamente uma leitura dos instintos da criatura. O lado de fora é um corredor iluminado por uma fraca luz esverdeada que vem do encontro das paredes com o teto e forrado por inteiro com algo macio que lembra pêlos curtos. À esquerda há uma outra porta entreaberta, emanando um cheiro conhecido e excitante. Lá dentro meia luz, uma cadeira próxima à fresta e uma mesa no canto onde um casal copula, de costas para porta. Os largos olhos de pupilas verticais percebem algo errado. Comparam a mão: Azul e de unhas negras. Longe do padrão local, róseo e transparente. O olhar foca no casal e sua mão vai mudando lentamente, até uma sensação de segurança se instalar. Na cadeira roupas dobradas. A criatura as veste suavemente na penumbra. Depois segue pelo corredor.

Este termina numa sala ampla, onde vários indivíduos jovens estão sentados em frente de caixas luminosas onde imagens passam aceleradamente. São batalhas, em essência, mas ela não repara nos detalhes. Busca uma saída, numa parede de vidro ao fundo e passa sem ser notada. Embora o responsável pelos recrutas, um rapaz pálido, cheirando á introspecção e timidez a veja e sorria. A criatura não entende a nova sensação de incômodo causada pela troca de olhares. Mas não importa.

Outro corredor. A parede de vidro atrás dela é escura por fora. O corredor é cinza e largo, com um teto bem alto, de onde pendem grandes fontes de luz bem espaçadas entre si, dando o efeito que se está em um ambiente ao ar livre, embora coberto. Ela segue na única direção onde parece haver uma saída e repara na ausência de som dos seus pés descalços. Sorri com a novidade. Há uma bifurcação. Um som forte e repetitivo vem da extremidade esquerda, enquanto na direita há uma escada. Olhos castanhos escuro espiam o livro que cabe na mão: Suba as escadas, diga boa noite e que estão lhe esperando.

No primeiro lance um homem em roupas angulosas de tecido preto vigia do alto da escada, ao lado de uma porta. Os olhos estão cobertos por pedaços de vidro escuro em uma fina armação metálica. A voz que fala com ele já adquiriu um tom local agradável, sem a força crepitante do fogo. A porta estala e abre. Um corredor largo com duas pequenas janelas de metal fechadas desperta uma sensação de familiaridade. A porta no extremo abre sozinha e dá acesso a uma sala alta e ampla, onde em uma mesa no centro um homem velho espera.

O homem e a mesa parecem vir da mesma época. Os entalhes e o estilo dos arabescos na tampa, o verniz antigo na madeira refletindo o brilho no rosto sulcado pela idade, os sólidos pés em forma de patas mitológicas sustentando mais por respeito do que por necessidade, um olhar inabalável e sereno, como de uma besta acordada no início da criação e que jamais repousa. Atrás dele uma cortina vermelha cobre um grande quadro, denunciado pelas bordas da moldura. Cercando a cortina em um arranjo elegante, estantes de livros, armas, máscaras e mapas, iluminados pela luz indireta e amarelada de luminárias douradas. Dos dois lados da porta de entrada, um mosaico de retângulos coloridos mostra várias cenas, corredores já percorridos, a sala dos recrutas, ambientes coloridos de uma exótica taverna. Ela pensa em como todos enxergam na semi-obscuridade constante daquele lugar e lembra dos guardas lá fora.

– Os óculos escuros deles enxergam a verdadeira natureza das coisas.

Não parece estranho como ele seguiu sua linha de raciocínio. Esse detalhe e todo aquele ambiente parecem naturais a ela como sua própria casa. Como um recanto conhecido á beira da estrada, pelo qual sempre se passa a caminho do trabalho. O mais curioso é como as palavras soam compreensíveis após um curto atraso na pronúncia.

– Aproxime-se.

Ela abandona o centro do desenho intrincado, no grande tapete onde estava e chega a uma das quatro cadeiras de veludo verde. O velho a olha inexpressivo, enquanto pega um pequeno objeto preto na mão e aponta para o mosaico em movimento. Um dos retângulos amplia-se e o rosto de um homem jovem é mostrado em vários ângulos diferentes.

– O alvo. Sua licença de caça vai até o amanhecer. O contrato padrão. Após extrair seu prêmio, você deve substituir por isto.

Ele empurra uma pequenina caixa quadrada pela mesa. Dentro dela uma brilhante jóia octogonal e transparente, do tamanho de uma bola de golfe. Ela gira a gema na mão, sente seu peso e num gesto rápido desloca o maxilar o suficiente para engoli-la com um estalido. Não há forma mais prática de carregar. Com o semblante inabalado, o velho lhe estende uma folha de pergaminho, aonde entre glifos coloridos, pequenos símbolos vão mudando de forma até se tornarem legíveis. Ela abre o livrinho vermelho e os mesmos signos cambiantes lhe indicam a ação correta. Ele a olha fixamente.

– Ainda desorientada?

– Não mais.

Ela fura a ponta do dedo com a adaga e desenha no espaço vazio do pergaminho. O sangue parece animar as coras da folha por um momento e então vai ficando menos brilhante. O velho guarda o pergaminho em uma gaveta e pela primeira vez faz uma expressão sutilmente alegre.

– A propósito, boa escolha de figurino, caiu muito bem para a noite de hoje. Mas vai precisar de sapatos. Tenho este par aqui, sem custo adicional nem compromissos.

Ele bota na mesa um para de sapatos de verniz azul escuro, ocasionalmente combinam com o vestido. Ela pega sem hesitar.

– Sim, façamos da maneira local, pés desnudos são demasiado incomuns para o ambiente. Quanto á escolha, foi circunstancial. Meu instinto tem uma tendência a ser sensato.

– Bom senso minha cara, é a primeira virtude que abandonará o senhor B. quando lhe ver. Boa sorte.

Ela levantou, olhou o próprio corpo e sorriu. As antigas armadilhas continuavam pegando novos pássaros. Certas coisas nunca mudam.

***

Após a saída dela, o velho homem pegou uma sacola de pano da gaveta e espalhou seu conteúdo pela mesa. Poliedros brilhantes de metal rolaram mudos no revestimento de couro.

– Seus melhores dados senhor B., esta noite. Não que seja de alguma valia.

Mas eu prometo me esforçar. É o mínimo a fazer por um bom cliente. Boa sorte.

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    • Demian
    • 29 novembro, 2008

    História criada lgo que completei o jogo Half Life, o primeiro. Estava imaginando introduções para uma possível fanfic do jogo, que nunca escrevi, e anotei no caderno os primeiros dois parágrafos.

    Depois os transcrevi no computador e escrevi até o sexto parágrafo e lá ficou na pasta dos incompletos por um bom tempo até eu finalmente conseguir resgatá-lo e finalizá-lo, integrando á história outros elementos do universo ficcional que havia desenvolvido-se a partir dessa e outras sementes iniciais de idéias.

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