Arquivo para agosto \06\UTC 2008

Bonecas Partidas

Era noite e uma chuva gélida e grudenta recobria a cidade com sua capa de melancólica umidade. As paredes dos velhos edifícios e o asfalto brilhando sob a luz dos postes, escorriam em um único movimento, lento, constante e monótono. Noite pra ficar em casa. Perfeita pro serviço na residência do Doutor Euclides. Era a nossa chance, pois a família levara o corpo fazia dois dias para ser velado na cidade natal do falecido, deixando a casa intocada. Parecia-me um contra-senso ficar ali naquele prédio abandonado, á distância, atento a qualquer movimento, pronto para avisar Sol pelo rádio. Seria mais fácil ter ficado na frente da casa, afinal era uma invasão relativamente rápida. Achava todo esse clima de espionagem um exagero, mas Miguel tinha uma pressa de quem sabe onde vai cair o próximo raio, e ele geralmente acertava. Não havia nada de místico nisso, até onde sabíamos, era devido aos anos de experiência com o oculto que ele tinha nas costas. Eu preferiria ter conversado com a família, inventado uma história sobre ser um colega de estudos, responsável por cuidar das anotações do falecido. Miguel garantiu, porém, que mesmo tal abordagem dando certo, o livro e o diário desejados já teria desaparecido quando finalmente conseguíssemos entrar no escritório particular do professor. Ele já tinha visto vários sumiços semelhantes ao longo dos anos. Não daríamos chance desta vez para a misteriosa “equipe de limpeza”.

Peguei o binóculo novamente, por hábito e certo nervosismo. A chuva quase anulava sua utilidade. Havia na situação uma pálida semelhança com as muitas tocaias, atrás de cônjuges infiéis que eu fizera, antes do rumo das investigações particulares mudarem, dois anos atrás. O caso da adolescente desaparecida. O pai era um comerciante emergente, com uma pequena rede de lojas de atacado, parecia um seqüestro. Quando eu localizei a chácara onde estavam a garota e suas amigas, dei por confirmadas as suspeitas iniciais da família. Indivíduos mal encarados carregavam ostensivamente armas, estavam sempre de olhos vermelhos, vigiando os arredores em seus passos mecânicos. As garotas dançavam em roda embaixo de uma árvore, a maior parte do tempo. Todos pareciam em transe. Tinha toda a aparência de algum tipo de seita. Telefonei pro meu contato na polícia, era contra as ordens da família da moça, mas eu não ia bancar o herói e enfrentar sozinho dez caras armados, só pra fazer um resgate cinematográfico, arriscando a vida da criança. Estava anoitecendo quando ouvi os tiros e a gritaria. Era hora de me arriscar, a polícia não tinha chegado ainda. Quando cheguei perto da casa, o luar iluminava o que inicialmente pensei serem toras de madeira na grama. Eram os corpos dos bandidos. Corri para dentro de arma na mão e coração na boca. Fiz uma entrada em clássico estilo tático da polícia. Não precisava tanto. Era um filme de horror. Lá dentro, algumas velas iluminavam uma garota de respiração ofegante, coberta de sangue e murmurando frases sem sentido, cercada por um cenário dantesco. Corpos rasgados ao meio, cabeças e braços arrancados, tripas espalhadas no chão e nas grossas vigas do teto, onde parte dos supostos seqüestradores foram jogados. Nem sombra das outras meninas. Pareciam nunca ter estado ali, como buscas posteriores constataram. E a garota sorriu quando cheguei perto com seu casaco cor de rosa, pra cobrir o vestido e todo aquele sangue. “Agora estou livre…” ela dizia. “Livre!”.

Foi internada numa clínica psiquiátrica particular, segundo soube depois. Os pretensos seqüestradores eram pessoas tranqüilas e sem histórico policial. Simples fazendeiros. O caso foi abafado pela família da moça. Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas deixei a história de lado, afinal já tinha cumprido minha parte. Foi quando começaram a aparecer vultos borrados nas fotos de flagrantes nos casos seguintes, ou imagens veladas que arruinavam rolos inteiros de evidências. Foi irritante. Um dia, após uma sessão inteira de fotos perdidas, sentei para ler um pouco e relaxar. Era uma tarde chuvosa, peguei um pequeno livro de couro marrom gasto e envelhecido. O diário do meu avô, que fora praçinha na segunda guerra. Já tinha folhado ao acaso, mas nunca lido seriamente. O texto me capturou por horas, fazendo lamentar o fato de não ter conversado mais sobre esse assunto com meu avô quando ele estava vivo. Na forma como ele escrevia e nas observações feitas, eu percebia traços do comportamento da família, aspectos de caráter ainda visíveis no meu pai. Então aquela passagem. Onde ele relatava a observação à distância de um grupo de soldados italianos. E nos mínimos detalhes lá estavam os olhos vermelhos e a estranha maneira de andar, idêntica aos homens da chácara… Os relatos ficavam mais estranhos, mas infelizmente o diário terminava, indicando a continuidade em outro volume. Essa segunda parte do diário tinha sido vendida junto com a maioria dos livros do meu avô, dez anos atrás e agora estava perdida. Foi procurando por ela que conheci Miguel. Então começamos a investigar as crianças desaparecidas…

Tirei o celular do bolso e apontei para a casa. Era costume guardar fotos de casos agora, graças ás novas tecnologias. Pronto. Não, cheia de riscos de luz. Tiremos outra… É, está melhor. Então a foto se apaga, o celular acende e desliga sozinho. Já vi equipamentos digitais sofrerem essa interferência antes. Droga! Algo muito ruim vai acontecer. Hora de ir pra rua.

A chuva bate num ritmo agradável no teto da van. O café instantâneo ajuda a evitar o sono tentador, que mesmo em situações tensas como essa insiste em aparecer. Penso em José no edifício abandonado. Ele ainda me olha esquisito quando exponho nossa forma de atuar. Toda a situação lhe parece exótica e também um pouco ridícula. Mas no fundo ele sabe que há algo profundamente errado. O Professor Euclides também sabia. Agora esse algo o matou. Mais uma vez cheguei tarde, apenas um par de conversas telefônicas e novamente um obituário. Alguma relação com os sem-teto mortos e seus olhos esbugalhados, na vizinhança do orfanato onde Euclides dava aulas? Eu seguia os casos de crianças desaparecidas fazia tempo, a história do homem do saco ficou mais complicada recentemente, quando surgiram relatos de orelhões tocando nas ruas, do outro lado da linha crianças chorando ou chamando pelos pais. Uma risada grave ao fundo da maioria das ligações, além de chiados familiares para mim. Ruídos que indicavam a interferência de espíritos. Tão evidentes quanto o traficante morto lá fora, a parca luz dos postes provavelmente estava passando através de seus dez buracos de bala. Era como ele geralmente gostava de se manifestar. Embora gostar não fosse um termo apropriado.

Hoje ele não estava falando. Eu sentia sua presença lá fora, ouvia seus passos na chuva e também quando ele tossia à distância. A aparelhagem tinha uma forma peculiar de zumbir quando ele se manifestava. Dava pra sentir que ele estava apreensivo. Isso não era um bom sinal, mas o risco valia a pena. O material do Doutor Euclides ia adiantar em muito toda a pesquisa que tínhamos pela frente, pra tentar entender algo do que acontecia no mundo. Para entender o que acontecera naquela noite na fábrica abandonada, quando fiquei preso nessa cadeira de rodas, entender aquela força invisível que destruiu nosso antigo grupo. Talvez possa clarear minha memória nessa parte. Lembrar não só dos amigos morrendo, mas de seus assassinos. Nos sonhos eles sempre mudam de rosto. Em algum lugar algo me fará lembrar. Porém aí será o começo de outro labirinto…

Temo por esses dois, eles ainda não tem noção em que os envolvi. Porém não há escolha, quando se atrai investigadores do desconhecido como um imã. Ambos praticamente caíram no meu colo. José estava atrás dos mesmos textos quando nos conhecemos pela internet. Sol topou conosco quando investigávamos o caso dos sonâmbulos da praça, pessoas que ouviam vozes chamando e terminavam vagando naquele mesmo lugar até alguém as acordar. Só descobrimos que as vozes pareciam vir da televisão quando essa ficava fora de sintonia na madrugada. Sol acreditava em algum ladrão hipnotizador, mas isso estava longe da verdade. Até hoje estamos com o caso em aberto, o fenômeno parou e não se repetiu mais, até onde sabemos.

Sol é contraditória, me lembra Anita, do antigo grupo. Filha da geração paz e amor, estudante de direito, entrou para a polícia e fez cursos de operações especiais com policiais dos Estados Unidos. Mas agora trabalha conosco. Tem incrível facilidade para entrar em contato com espíritos, mas sempre negou seus dons, embora seja óbvio para mim o fato dela só ter encontrado muito dos seus casos devido a mensagens do além. Ela se recusa a levar esse seu lado a sério, nem gosta de tocar no assunto. Tenho a impressão que ela não poderá negar esse aspecto de sua vida por muito tempo…

Alguém fez uma queima de arquivo. Morte por pânico, ou um aparente suicídio do Doutor Euclides não me convence. Essa invasão só vale para frustrar quem estiver tentando acobertar o sumiço das crianças. O falecido era paranóico, mas não por segurança. Muito fácil entrar, nenhum alarme. Miguel é exagerado na forma de conduzir a situação, mas era de se esperar de um louco. Um louco esperto e inteligente, mas nem por isso menos perturbado. Ressaltando o perigo oculto nas sombras sempre pronto para nos devorar, como fizera com seus amigos anos atrás. Ilusões. Miguel fora mais uma vítima da ditadura, torturado até ficar paraplégico, seus colegas da guerrilha urbana morreram nos porões da repressão. Não podia culpá-lo por criar uma fantasia tão elaborada pra escapar da realidade. Tive a vida ganha durante muito tempo. Mas ele sabe coisas, ah sim, sabe muito mais desses mistérios aí fora do que o governo ou a polícia querem saber. Com ele e José pelo menos rumamos pra algum lugar, em vez de mais um beco sem saída. Hum, o escritório. Coisas voaram por aqui. Mas o armário está intacto, a cópia da chave funciona e o pacote de papel pardo com o material do Doutor Euclides está aí. Conferir o pacote… Sim, tudo certo, tudo fácil.

Sinto as sombras se moverem. Um barulho. Viro-me com a pistola na mão. Papéis flutuam no ar, arrastados por um estranho vento de lugares fechados. Não há ninguém. São eles. Ignorar, guardar o envelope na mochila e sair. O vento frio arrepia a nuca. Detesto isso! Mas sempre acontece antes de algo dar errado. Sempre. Nesse ponto tenho de dar o braço a torcer.

Viro-me para a porta escura que deixei aberta. No canto do olho há outro movimento. A mão desloca ar antes de o fedor me alcançar. Muito próximo. Solto a perna de baixo para cima, sinto a resistência do quadril num golpe para aleijar. Mas a figura escura aproveita o movimento para agarrar a coxa e me empurrar o ombro. Dedos fortes demais, nem sentiram o golpe. Não cair. O braço estica em frente à testa dele e automaticamente o impacto do tiro vem através de seus dedos antes do som da pistola. Ele afrouxa e eu aproveito o movimento para inclinar para trás e já atirar por baixo do queixo de outro vulto escuro e sem camisa. Girar o corpo e ficar reta. Um terceiro na porta. Eles fedem. Rápido. Outra bala entre os olhos. Estão no corredor. Casa térrea. Começo a correr para a janela fechada, já tem quatro no meu caminho. Atirar pra esquerda, atirar pra direita. Mirar a cabeça. Não parar, não pensar em mais nada. Saltar, ombro, girar, atirar para trás.

A mochila protege a cabeça, vidro, madeira e as raízes no chão do pátio molhado. Erga os olhos ignore a chuva. Já tem um na janela. Mais uma bala no rosto. Ficar em pé, correr, recarregar. Muito lenta, levo um golpe na barriga. Arma pronta, terra molhada, chuva na cara, mal defendo o soco. Nariz sangrando e ele vem por cima tentando segurar a pistola. Forte, fedido, vai quebrar meu pulso. Sua outra mão vira devagar meu braço esquerdo contra o solo. Parece que ele vai conseguir. Parece. Giro o pulso quase até quebrar, mas consigo o ângulo. O tiro no pescoço praticamente arranca a cabeça. Jogo o corpo pro lado, sento preparada. Arma em riste. Mas não há ninguém lá.

Atrás de mim, pés na água. Apoio no braço esquerdo e me viro, a pistola termina o trajeto apontando pro rosto de uma criança. Uma menina de no máximo três anos num vestido branco me olha sorrindo, suas bochechas gordinhas salpicadas de chuva. O vestido e o cabelo de cachos castanhos mal começaram a se molhar e a velha boneca de pano dela tem um rosto estranho, um olhar muito sério para um brinquedo. A voz me custa a voltar, enquanto abaixo a arma e tento limpar o sangue do nariz. No insólito da situação, só lembro de pedir desculpas e perguntar se ela está bem.

– Você é educada moça bonita. Mas vai morrer mesmo assim. Então você vai saber até onde se fica com frio.

Quando sinto agulhas no estômago e sou jogada para trás, a garganta apertada por mãos invisíveis, sinto entre as pancadas vazias que ela pode estar certa.

Sol está caída na chuva, lutando com o vazio. O som de tiros seguiu o mau presságio nas fotos do celular. Em quem diabos ela está atirando tantas vezes? Ainda ouço os tiros abafados quando desço as escadas correndo. Quase escorrego duas vezes. Ninguém na rua. Se ouviram os tiros fizeram questão de nem acender as luzes. Estou entrando no pátio e Sol está apanhando do nada na frente de uma garotinha sorridente. Deus, o que é isso?! Um som de carro e movimento. Reconheço o motor da van. Ela ainda está longe. Sol está sufocando. A menina para de sorrir e me olha com uma cara triste:

-Moço tô com medo! Faz parar, faz! Leva eu embora, por favor.

A vozinha meiga é um soco no estômago, naquele cenário. Parece ser a coisa certa apontar minha pistola pro horrível rosto asfixiado da mulher suja de lama na minha frente. Mas não, não combina.

-Moço, você é amigo?

-Pare. Deixe-a em paz e vá embora.

-Você tá brabo?

-Larga ela quieta e sai daqui!

A criança retrai o canto da boca num sorriso impossível para alguém daquela idade.

-Ah, mas ela vai ficar bem quietinha… Logo, logo, essa vadia morre…

Atravessei o quintal em fúria e estou apontando a arma para uma menininha. Aquela situação parece embaçar com a chuva e existir em algum outro lugar, não ali. Não sou eu fazendo isso. Está longe como o olhar da criança e o frio na minha barriga. Os olhos dela me atravessam como se eu fosse feito de vidro, um boneco numa vitrine tentando apontar com seu dedo de cristal para um desastre onde não pode interferir.

-Não me assusta não moço.

-Pára!

-Não quero…

-Chega!

Ela ia dizer alguma coisa, sua boquinha se abriu num beiçinho torto, então senti o coice como se estivesse atirando pela primeira vez na vida.

A bala entrou na testa e a criança se deslocou inteira para trás, ainda em pé. Os sapatinhos deixaram trilhas retas na lama. Algo voou por detrás de seus cabelos. A cabeça pendeu para trás em um movimento brusco. Sol começou a respirar e tossir. A menina lentamente foi endireitando a cabeça e olhou para mim. O rosto triste tinha rachaduras partindo do buraco perfeitamente redondo no alto dos olhos. Parecia uma boneca de porcelana quebrada e ao mesmo tempo, carne e osso. A voz também parecia rachada, mas ainda era infantil:

-Você é livre moço? Espero que seja… É tão bom…

E caiu com um som seco. Eu a toquei incrédulo com o que fizera. E era realmente uma boneca de porcelana. Larguei enojado e entrei mecanicamente na van recém parada na entrada da casa. Consegui ajudar Sol a entrar e fechar as portas, enquanto Miguel arrancava dali gritando conosco. Tive até um momento de contemplação vendo a habilidade dele em trocar as marchas na van adaptada. Foi o último pensamento antes de ajoelhar num canto, enfiar a cabeça nos joelhos e misturar lágrimas á calça úmida e enlameada.Ter emoções em momentos assim parece um luxo, mas me deixo levar.

O orfanato cheirava a bolo e refresco. Era uma tarde ensolarada e as crianças brincavam pelos corredores. Eu sentia ainda os hematomas que não marcavam minha pele, mas doíam como se eu tivesse me recuperando de um atropelamento. Uma das assistentes sociais ligara no telefone do meu disfarce, informando a chegada de uma correspondência. Ela estava convencida de que eu era do colégio onde Euclides lecionava história e ficara responsável pelas cartas dele. Por alguma estranha razão, a família do doutor nunca soubera do orfanato. Ele fizera questão de esconder essa faceta de sua vida. Logo as cartas não tinham para onde ir e não se importavam de entregá-las á simpática moça de taileur azul, ali no corredor esperando tão pacientemente. Pelo mesmo motivo fora tão fácil conseguir copiar a chave do armário da casa do professor.

Na correspondência de Euclides talvez houvesse alguma referência direta a o contato misterioso citado por ele em suas anotações pessoais. Isso aparentemente facilitava nosso caminho incerto dali em diante, mas eu mal conseguia pensar no futuro. Não conseguia digerir os acontecimentos da semana passada. Só queria pegar as cartas e ir embora. Sumir por um tempo antes de voltar a perseguir crianças desaparecidas. Esquecer aquele frenesi de tiros frios e calculistas em vultos que não estavam lá. Só me deixar envolver pela boa e velha normalidade do orfanato, ouvindo o som das crianças brincando.

Uma menininha morena tinha parado na minha frente. Chupava o dedo e segurava um cobertorzinho. Tinha um olhar curioso, como de quem poderia ficar horas contemplando um adulto sem motivo algum. Sorri para ela, era o ato mais sincero dos últimos dias e igualmente contemplativo. Ela avançou devagar e tirou o dedo da boca:

-Você se acha muito esperta, mas não passa de uma vadia.

-Quê?!

-Mariana, você quer ir ao banheiro?

-Tia, quero bolo!

-Tudo bem, mas vamos ao banheiro antes.

-Tá.

A mulher chegara de súbito e agora saía segurando a criança pela mão. Mariana Olhava para trás, vendo-me receber distraída o maço de cartas. Eu só conseguia prestar atenção na menina. Ela sorriu sardonicamente e piscou o olhinho. E virou para frente. Retirei-me perplexa.

Enquanto saía, reparei nos meninos curvando a cabeça num cumprimento respeitoso e irreal demais. Irreal como as crianças, todas me observando sérias e com um olhar levemente arrogante, certas de sua infinita superioridade. Como as meninas apontando repetidamente para as bonecas em seus braços enquanto me olhavam fixamente. Algumas riam irônicas, outras com um olhar de raiva muda, mas todas foram acompanhando meus passos até a porta da frente, até eu desaparecer da vista da última delas. Eu estava enganada? Apenas exagerando o comportamento de simples crianças? Porém minha guarda estava baixa pra não pensar em horrores. Não ia ignorar aquele fato. O insólito ganhava contornos de realidade, contrariando meu desejo por explicações mais sólidas. Porém, o que esperar quando as sombras pouco a pouco invadiam dias de sol?

A tarde de sol agora tinha um recheio gélido. E eu me sentia oca como um brinquedo barato. Uma escuridão sem nome me esperava tricotando em algum lugar do futuro, e eu não tinha mais pressa de chegar. Estavam lá, mas eu não queria olhar. Era importante não ver os fios, pois não havia liberdade na escuridão. Somente maiores e novas trevas.

O Doce Aroma do Lar

Filipe acordou com uma risada de mulher. Sonhando e com a cabeça cheia de imagens, tentou se situar. Estava no escritório, o monitor apagado. Devia ter cochilado uns quinze minutos ou mais! Assustado olhou ao redor, ergueu-se discretamente. Não estavam rindo dele. Alguém esquecera a porta do corredor aberta, os risos vinham da copa. Sentiu-se observado. Breno tinha testemunhado seu sono, e não disfarçava o sorriso irônico enquanto voltava a digitar rapidamente no computador. Patético, parecia dizer com uma rápida troca de olhares. Breno era um desses tipos ordeiros e eficientes, educado mas repleto de um sentimento de superioridade em relação a todos ao seu redor, até mesmo os patrões. Não valia a pena chamar a atenção dos colegas para a soneca de um funcionário. Felipe torceu os lábios. Sua moral andava baixa no escritório, depois do término com Ana. Ele fora trocado por um executivo com um cargo melhor, sua vida trombou com um clichê amargo. Acabara de comprovar que o envolvimento amoroso com uma colega de trabalho era problemático. Ninguém comentava, mas todos sabiam. Ele tentava seguir em frente. Mergulhou no trabalho e em uma maratona de fins de semana em bares e boates. Até o momento só conseguira ficar cansado. Mas não era assombrado pelas lembranças.

Tentou recordar o sonho, era como uma memória da infância, mas muito rápido, só ficara a imagem de inúmeros pés femininos de salto alto, o barulho de uma máquina de escrever antiga. Sua mãe? Não imaginava qual o significado, mas o movimento frenético no sonho causava um incômodo que reforçava sua idéia de mudar de secção por um tempo. Procurou por Arnaldo o gerente de setor e perguntou onde ficava a administração de recursos humanos. Arnaldo, um cinqüentão atlético com uma discreta barriginha, conversava com um grupo de funcionárias na copa quando foi interpelado. Seu rosto, de uma constante tranqüilidade zen budista, era a fusão entre um olhar paternal e um sorriso sutilmente sarcástico. Ele parecia não só antecipar as respostas, mas também sentia as motivações, mesmo quando o caso não era óbvio como o de Felipe:

– Olívia, oitavo andar, sala oitocentos e oito.

Tudo com ó, pensou alegre Felipe enquanto tomava o elevador. A campainha anunciou a chegada e ele caminhou pelo sóbrio corredor preto e branco. Viu a porta logo após a primeira intersecção e notou que era próximo á sala de reuniões e no andar da chefia. Ele nunca reparara naquela porta envernizada de preto brilhante, apesar de ter passado por ali tantas vezes. Entrou sem bater.

A sala era um limpo conjunto de linhas horizontais e verticais, móveis de ângulos retos, tons de preto, cinza e algum amarelo. Poltronas quadradas de couro guardando a porta, uma cadeira de metal e couro em frente á grande mesa de laca negra, cuidadosamente ordenada. Sobre sua larga superfície havia espaço de sobra para diversas miudezas de escritório: resmas de papel, clipes, lápis, apontadores elegantes e diversos outros objetos. O centro e a frente da mesa eram de vidro, deixando á mostra o corpo inteiro da secretária. Ele olhou para o carpete cinza, se seguiu para os sapatos pretos, com detalhes laterais brancos.

Ela estava sentada com as pernas juntas para o lado direito, enquanto o resto do corpo torcia levemente para a esquerda, onde estava o laptop no qual ela escrevia com rapidez. Meias pretas, saia com as laterais brancas um terno feminino quase inteiramente branco, a não ser por uma faixa central preta, alargada na gola e aí mesclada com branco. A faixa triangular de uma blusa branca continha o decote. Um fino colar dourado com um pingente, uma pulseira também dourada justa no meio do antebraço direito e nenhum anel. Um rosto de pequenas bochechas, maçãs salientes e nariz pequeno. Sobrancelhas grossas e testa alta de onde brotava um grande cabelo liso e negro. Ela usava óculos retangulares de aro preto e fino, pequenos e bonitos. O batom um tom de uva escuro, os lábios finos. Sua pele era levemente morena, naturalmente bronzeada. Seu corpo não era voluptuoso, tinha um equilíbrio entre curvas gentis e ossos angulosos, como a sala. Como uma só entidade.

Os segundos nunca foram tão longos para Felipe como naquele momento. Ao perceber o quanto reparava nela, notou as paredes de vidro fosco, atrás das quais silhuetas escuras trabalhavam. Fechou a porta com um estalo preciso da fechadura nova.

– Olá, bom dia. Em que posso ajudá-lo?

A voz dela começava um pouco aguda e terminava grave. Ela largou o laptop e colocou os braços e as pernas para frente, na direção dele. Esmalte escuro. O sorriso era formal, mas o olhar aparentemente ingênuo atravessava Felipe como se ele fosse transparente. Em vez de intimidar acalmava, seduzia, era familiar como a infância.

– Olá senhorita Olívia, sou Felipe Oliveira, vim tratar de uma possível transferência para outra seção.

– Tudo bem, explique-me seu problema.

Ele hesitou. Disse algumas frases vagas sobre o seu ambiente de trabalho e seu histórico na empresa. Contemplou novamente a beleza de Olívia e desviou os olhos para os objetos sobre a mesa. Reparou em uma miniatura de metal brilhante, usada como peso de papel. Antes de perguntar ela antecipou-se:

– Isso é uma reprodução de um tear de Jacquard. Meus ancestrais trabalharam com tecelagem por mais de um século. Infelizmente não sobrou nenhuma fortuna para minha geração, apenas esse pedaço de metal ficou, como souvenir de tempos áureos.

– Minha mãe foi secretária, inclusive, se não me engano, em uma antiga sucursal desta firma, tempos atrás. Isso me garantiu o estágio inicial aqui. É um emprego tão importante quanto qualquer outro.

– Claro que é. Sua mãe trabalhou aqui? Hum… Deixe-me ver… Ah sim, ainda está na base de dados. Foi em uma firma menor que adquirimos faz vinte anos. Porque você achou que ia se enganar a respeito disso?

– Ah, na verdade não lembro muito da minha mãe. Ela sumiu quando eu tinha sete anos, fui criado por um tio. Na adolescência soube que ela tinha morrido. Aparentemente, antes de morrer ela mexeu uns pauzinhos para me garantir um lugar nesta empresa.

– Influente ela não?

– É, ela foi.

Ele olhou para Olívia um pouco incomodado com o próprio excesso de sinceridade. Sentia-se em uma armadilha montada pela figura da secretária. Ela olhou-o, deixando o silêncio envolver a sala enquanto sorria com cumplicidade. Ele manteve-se sério.

– Vou ver o que posso fazer por você Felipe.

Olívia levantou e dirigiu-se á porta negra atrás dela. Era idêntica a porta do escritório, mas sem o número. Ela abriu-a o suficiente para passar e Felipe viu apenas um quarto escuro e lampejos de luz fluorescente acendendo pouco antes de a porta fechar. Estranho. Sala do chefe ou armário de servidores? Bom, não importava agora. Olhou para o laptop dela, uma planilha era visível. Pegou a miniatura do tear e a analisou. Detalhes muito trabalhados. Uma peça bem conservada apesar da antiguidade aparente. E tinha uma data gravada…

Viu a maçaneta girando e botou a miniatura no lugar. Olívia voltara com um ar vitorioso. Ela sorria como se o conhecesse há anos, com uma cara de irmã mais velha. Ele achou agradável a idéia, pois era filho único.

– Tudo certo. A partir de amanhã você vai trabalhar aqui nos recursos humanos, na sala ali ao lado. Bem vindo.

Ele apertou a mão dela, contente com a resolução rápida. Porém a situação era um pouco estranha, indecifrável. Como o perfume de Olívia levantado no aperto de mão. Algo entre melão e cera de abelha.

***

O volume e a intensidade do trabalho não haviam mudado no novo setor, mas Felipe sentia-se muito melhor. A grande sala não tinha divisória, a parede de vidro deixava entrar bastante luz, apesar da película escura. Havia mais vasos de flores nas mesas de seus reservados colegas. A vida pessoal não tinha dado nenhum salto ainda, apesar da expectativa. Com o tempo tudo mudaria. Essa nova perspectiva deixava Felipe tranqüilo. O mais próximo de um incômodo agora era a curiosidade em relação á Olívia.

Da mesa dele era possível ver a silhueta dela por trás do vidro fosco. Ás vezes no meio do trabalho, ele olhava para lá, observado os movimentos da secretária. Ela ficava a maior parte do tempo na mesa, saía na hora do almoço e entrava duas vezes por dia na sala atrás dela. A parede após as laterais de vidro da sala de Olívia sugeria um recinto não muito grande para uma sala de chefia, mas ele descartara essa possibilidade. Nunca flagrara alguém saindo de lá, nem no fim do expediente. A secretária era a única a freqüentar a salinha. E a porta nunca parecia estar trancada.

Entre ele e Olívia havia uma silenciosa cumplicidade, feita de olhares e sorrisos, mas não passava disso. Era estranho como aquela sensação surgira tão rápida e se instalara entre, até então, dois desconhecidos. Ela o atraía, mas ao mesmo tempo era uma irmãzinha. Ele viu-se tomado pela curiosidade de conhecer todos os detalhes da vida dela. E o mais intrigante era a porta.

Um dia ele almoçou um sanduíche mais cedo. Quando a sala ficou vazia ele viu Olívia fechar o notebook, pegar uma bolsa e sair. Levantou-se sem pressa e caminhou devagar, como se fosse embora. Ao entrar na sala da secretária não viu através do vidro ninguém no outro setor gêmeo ao seu. Andou até a porta e ficou parado um minuto, ouvindo apenas o zumbido suave dos computadores nos escritórios vazios. Tinha meia hora. Tocou a maçaneta reta e sentiu um arrepio. Ela era morna e sua mão estava fria. Abaixou-a e a porta abriu. Ele entrou no quarto escuro e fechou-a atrás de si.

Os flashes de luz branca o cegaram. Quando os olhos conseguiram afastar a escuridão ele viu-se em uma sacada de formas fluidas, iluminada de violeta. O espaço era oval, de paredes curvas e parecia feito de carapaças de inseto esculpidas em resina. Atrás de si a porta mantinha suas linhas retas, mas ficara transparente, assim como a parede onde estava, deixando visível o escritório. A sacada tinha duas projeções laterais, como pedaços de asas translúcidas protegendo a beirada, cujo meio era aberto. Com dois passos ele chegou à beira.

Á sua frente e ao seu lado, para cima e para baixo, sacadas idênticas sucediam-se, á beira de um abismo sem fim aparente, gomos diáfanos de espigas gigantes. Geometricamente encaixadas umas nas outras, um jogo de montar feito com o corpo de insetos. As paredes desenhavam uma ampla elipse e antes de encontrarem-se nos cantos do horizonte, voltavam a ficar paralelas, á distância de não mais de duas delas uma da outra. Aquilo era o único indício da arquitetura maior do favo. Estalos longínquos e seqüenciais ecoavam no ambiente. Em cada sacada as paredes transparentes deixavam ver escritórios com uma única mesa á frente da porta de entrada. Fora esse detalhe nenhum tinha estilo igual. Alguns tinham o desenho ultrapassado, ou assumidamente de época, outros extremamente modernos ou muito exóticos, naquele momento todos vazios.

Felipe devia estava em parte atordoado, mas sentia-se em casa e isso era perturbador. Examinou as sacadas tentando achar algo ou alguém conhecido. Uns vinte metros para baixo dele viu um corpo. Um esqueleto em um casaco masculino caído em um canto ao lado da porta. Não era o único. Grudado a um beiral quase no nível dele estava o cadáver mumificado de uma criança, provavelmente um menino. Ele começou a ficar com medo de tudo aquilo. Longe no alto algo se movia. Era um inseto indistinto. Trabalhava sozinho em um gomo. Ele teve o impulso de fugir, mas a criatura sentiu o olhar de pavor e desceu em um forte zumbido. Não houve tempo de correr para á porta, compridas patas pretas o cercaram com um triângulo cuja ponta fechava sua única saída. Outras duas garras o apertaram pelos braços e ergue-o próximo ao inseto negro. O bicho era um amálgama robótico entre uma aranha e abelha, com uma cabeça de formiga no final de um grosso pescoço. Com um silvo a cabeça começou a retrair para trás e ele percebeu que o pescoço era a parte superior de um tórax de mulher e a cabeça um capacete, de onde uma mulher de pele cinza-azulada surgia. O rosto fora uma das poucas lembranças que restara. Ela era sua mãe.

– Fffiillipheff… kuan too tteemp querrridd!!

O nome dele parecia pronunciado por uma válvula pneumática. O resto era a mistura de quelíceras e uma garganta humana. Felipe lacrimejava, entre o pavor e a emoção.

– Mãe?

Ela ajustou o tom de voz, enquanto expunha a cabeça, mostrando cabelos que pareciam um feixe de grossos nervos negros. Em suas pupilas verdes círculos concêntricos giravam e expandiam.

– Não meu bem… Sua mãe morreu. Ela cumpriu sua função, seu corpo já foi processado na câmara decompósita, sua consciência foi integrada ao sistema de roteamento pluridimensional. Nasci do mesmo molde que ela, compartilhei a mesma consciência, vi você ser gestado e nascer. Sinto ainda o mesmo afeto… Oh Felipe, você estava tão perto de nós e nem sabíamos, perdoe-nos.

– Mas eu não entendo, o que é isso tudo?

– Fora do tempo, fora do espaço, fora. Onde nasceste chegamos séculos atrás. As primeiras tricotavam aos pés das guilhotinas. Depois vieram os teares mecânicos e começamos a abrir caminho. Nós somos toleradas meu bem, pegamos tão pouco, os que vigiam já se acostumaram conosco…

– Muito vago, nada disso faz sentido para mim.

Ao longe ouvi um som de tiros e um clarão explosivo a surpreendeu com a boca aberta. O rosto de minha mãe soltou um olhar cheio de afeto e um ronronado mecânico.

– Um transeunte, usando o ninho como atalho entre lugares. Nada gentil. Fique aí querido, tenho trabalho. Tome, isto vai te esclarecer.

Ela beijou a boca de Felipe, regurgitando um fluido espesso em sua garganta. Sem tempo de reagir, engoliu a substância doce e cortante como vidro moído, enquanto era rapidamente depositado com cuidado em um canto da sacada. O capacete de cabeça de formiga aranha fechou-se e ela partiu em um salto. Ele sentou-se contra a parede, pensando imediatamente na posição do esqueleto no outro nível mais abaixo. O gosto da substância dava náuseas e tremores no corpo. Teria ele um destino idêntico aquele desconhecido?

Ele olhou para os escritórios, e em cada um deles ao mesmo tempo a porta se abriu. Inúmeras mulheres fizeram os mesmos movimentos, andando em sincronia até suas mesas e depositando suas bolsas. Elas caminharam até a porta de cada sacada e as abriram em uníssono. Ele viu Olívia entrar, escutou o som da porta e o eco de seus saltos altos, amplificado em uma ensurdecência crescente, á medida que ela chega á beira do gomo. Ela olhou para ele e sorriu, como se esperasse sua presença. Olívia abriu os braços e começou um canto fino, todas as outras a seguiram. O canto virou um mantra, o mantra um gorgolejo e então uma série de estalos, zumbidos e vibratos, uma cacofonia lancinante penetrava os ouvidos de Felipe. Mesmo tapando com as mãos, o som atravessava a pele e era sentido nos ossos. O mal estar causado pela gosma da sua pseudo-mãe não ajudava, ele agora começava a ter visões. O conhecimento ia sendo absorvido pelo seu corpo, e ele relaxava. A cacofonia cresceu, diminuiu e subitamente parou. As secretárias voltavam devagar para suas salas. Olívia se aproximou dele e acariciou seu rosto, o perfume dela estava mais forte, feria as narinas, embriagava.

– Calma Felipe, tudo vai ficar bem. Você vai conseguir o que deseja. Há um emprego esperando por você lá fora, e uma parceira há de vir logo lhe fazer companhia, você vai ver. Sinta o conhecimento invadindo, aprenda, abandone a casca. Pois o seu agora é isso Felipe, apenas uma casca.

Ela o beijou sua testa. Era como estar com febre. O lugar inteiro curvava para um lado ou para o outro. Lentamente ele começou a ouvir a história dos seus antepassados, enquanto o tremor o abandonava. Olívia saiu e ele observou sua delicada mão fechando a porta devagar. O esmalte das unhas. Naquele dia ela tinha vindo de amarelo. E aquela cor preencheu o ambiente antes de tudo ficar escuro. A dor sumira. Ele sabia quem era.