Bonecas Partidas

Era noite e uma chuva gélida e grudenta recobria a cidade com sua capa de melancólica umidade. As paredes dos velhos edifícios e o asfalto brilhando sob a luz dos postes, escorriam em um único movimento, lento, constante e monótono. Noite pra ficar em casa. Perfeita pro serviço na residência do Doutor Euclides. Era a nossa chance, pois a família levara o corpo fazia dois dias para ser velado na cidade natal do falecido, deixando a casa intocada. Parecia-me um contra-senso ficar ali naquele prédio abandonado, á distância, atento a qualquer movimento, pronto para avisar Sol pelo rádio. Seria mais fácil ter ficado na frente da casa, afinal era uma invasão relativamente rápida. Achava todo esse clima de espionagem um exagero, mas Miguel tinha uma pressa de quem sabe onde vai cair o próximo raio, e ele geralmente acertava. Não havia nada de místico nisso, até onde sabíamos, era devido aos anos de experiência com o oculto que ele tinha nas costas. Eu preferiria ter conversado com a família, inventado uma história sobre ser um colega de estudos, responsável por cuidar das anotações do falecido. Miguel garantiu, porém, que mesmo tal abordagem dando certo, o livro e o diário desejados já teria desaparecido quando finalmente conseguíssemos entrar no escritório particular do professor. Ele já tinha visto vários sumiços semelhantes ao longo dos anos. Não daríamos chance desta vez para a misteriosa “equipe de limpeza”.

Peguei o binóculo novamente, por hábito e certo nervosismo. A chuva quase anulava sua utilidade. Havia na situação uma pálida semelhança com as muitas tocaias, atrás de cônjuges infiéis que eu fizera, antes do rumo das investigações particulares mudarem, dois anos atrás. O caso da adolescente desaparecida. O pai era um comerciante emergente, com uma pequena rede de lojas de atacado, parecia um seqüestro. Quando eu localizei a chácara onde estavam a garota e suas amigas, dei por confirmadas as suspeitas iniciais da família. Indivíduos mal encarados carregavam ostensivamente armas, estavam sempre de olhos vermelhos, vigiando os arredores em seus passos mecânicos. As garotas dançavam em roda embaixo de uma árvore, a maior parte do tempo. Todos pareciam em transe. Tinha toda a aparência de algum tipo de seita. Telefonei pro meu contato na polícia, era contra as ordens da família da moça, mas eu não ia bancar o herói e enfrentar sozinho dez caras armados, só pra fazer um resgate cinematográfico, arriscando a vida da criança. Estava anoitecendo quando ouvi os tiros e a gritaria. Era hora de me arriscar, a polícia não tinha chegado ainda. Quando cheguei perto da casa, o luar iluminava o que inicialmente pensei serem toras de madeira na grama. Eram os corpos dos bandidos. Corri para dentro de arma na mão e coração na boca. Fiz uma entrada em clássico estilo tático da polícia. Não precisava tanto. Era um filme de horror. Lá dentro, algumas velas iluminavam uma garota de respiração ofegante, coberta de sangue e murmurando frases sem sentido, cercada por um cenário dantesco. Corpos rasgados ao meio, cabeças e braços arrancados, tripas espalhadas no chão e nas grossas vigas do teto, onde parte dos supostos seqüestradores foram jogados. Nem sombra das outras meninas. Pareciam nunca ter estado ali, como buscas posteriores constataram. E a garota sorriu quando cheguei perto com seu casaco cor de rosa, pra cobrir o vestido e todo aquele sangue. “Agora estou livre…” ela dizia. “Livre!”.

Foi internada numa clínica psiquiátrica particular, segundo soube depois. Os pretensos seqüestradores eram pessoas tranqüilas e sem histórico policial. Simples fazendeiros. O caso foi abafado pela família da moça. Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas deixei a história de lado, afinal já tinha cumprido minha parte. Foi quando começaram a aparecer vultos borrados nas fotos de flagrantes nos casos seguintes, ou imagens veladas que arruinavam rolos inteiros de evidências. Foi irritante. Um dia, após uma sessão inteira de fotos perdidas, sentei para ler um pouco e relaxar. Era uma tarde chuvosa, peguei um pequeno livro de couro marrom gasto e envelhecido. O diário do meu avô, que fora praçinha na segunda guerra. Já tinha folhado ao acaso, mas nunca lido seriamente. O texto me capturou por horas, fazendo lamentar o fato de não ter conversado mais sobre esse assunto com meu avô quando ele estava vivo. Na forma como ele escrevia e nas observações feitas, eu percebia traços do comportamento da família, aspectos de caráter ainda visíveis no meu pai. Então aquela passagem. Onde ele relatava a observação à distância de um grupo de soldados italianos. E nos mínimos detalhes lá estavam os olhos vermelhos e a estranha maneira de andar, idêntica aos homens da chácara… Os relatos ficavam mais estranhos, mas infelizmente o diário terminava, indicando a continuidade em outro volume. Essa segunda parte do diário tinha sido vendida junto com a maioria dos livros do meu avô, dez anos atrás e agora estava perdida. Foi procurando por ela que conheci Miguel. Então começamos a investigar as crianças desaparecidas…

Tirei o celular do bolso e apontei para a casa. Era costume guardar fotos de casos agora, graças ás novas tecnologias. Pronto. Não, cheia de riscos de luz. Tiremos outra… É, está melhor. Então a foto se apaga, o celular acende e desliga sozinho. Já vi equipamentos digitais sofrerem essa interferência antes. Droga! Algo muito ruim vai acontecer. Hora de ir pra rua.

A chuva bate num ritmo agradável no teto da van. O café instantâneo ajuda a evitar o sono tentador, que mesmo em situações tensas como essa insiste em aparecer. Penso em José no edifício abandonado. Ele ainda me olha esquisito quando exponho nossa forma de atuar. Toda a situação lhe parece exótica e também um pouco ridícula. Mas no fundo ele sabe que há algo profundamente errado. O Professor Euclides também sabia. Agora esse algo o matou. Mais uma vez cheguei tarde, apenas um par de conversas telefônicas e novamente um obituário. Alguma relação com os sem-teto mortos e seus olhos esbugalhados, na vizinhança do orfanato onde Euclides dava aulas? Eu seguia os casos de crianças desaparecidas fazia tempo, a história do homem do saco ficou mais complicada recentemente, quando surgiram relatos de orelhões tocando nas ruas, do outro lado da linha crianças chorando ou chamando pelos pais. Uma risada grave ao fundo da maioria das ligações, além de chiados familiares para mim. Ruídos que indicavam a interferência de espíritos. Tão evidentes quanto o traficante morto lá fora, a parca luz dos postes provavelmente estava passando através de seus dez buracos de bala. Era como ele geralmente gostava de se manifestar. Embora gostar não fosse um termo apropriado.

Hoje ele não estava falando. Eu sentia sua presença lá fora, ouvia seus passos na chuva e também quando ele tossia à distância. A aparelhagem tinha uma forma peculiar de zumbir quando ele se manifestava. Dava pra sentir que ele estava apreensivo. Isso não era um bom sinal, mas o risco valia a pena. O material do Doutor Euclides ia adiantar em muito toda a pesquisa que tínhamos pela frente, pra tentar entender algo do que acontecia no mundo. Para entender o que acontecera naquela noite na fábrica abandonada, quando fiquei preso nessa cadeira de rodas, entender aquela força invisível que destruiu nosso antigo grupo. Talvez possa clarear minha memória nessa parte. Lembrar não só dos amigos morrendo, mas de seus assassinos. Nos sonhos eles sempre mudam de rosto. Em algum lugar algo me fará lembrar. Porém aí será o começo de outro labirinto…

Temo por esses dois, eles ainda não tem noção em que os envolvi. Porém não há escolha, quando se atrai investigadores do desconhecido como um imã. Ambos praticamente caíram no meu colo. José estava atrás dos mesmos textos quando nos conhecemos pela internet. Sol topou conosco quando investigávamos o caso dos sonâmbulos da praça, pessoas que ouviam vozes chamando e terminavam vagando naquele mesmo lugar até alguém as acordar. Só descobrimos que as vozes pareciam vir da televisão quando essa ficava fora de sintonia na madrugada. Sol acreditava em algum ladrão hipnotizador, mas isso estava longe da verdade. Até hoje estamos com o caso em aberto, o fenômeno parou e não se repetiu mais, até onde sabemos.

Sol é contraditória, me lembra Anita, do antigo grupo. Filha da geração paz e amor, estudante de direito, entrou para a polícia e fez cursos de operações especiais com policiais dos Estados Unidos. Mas agora trabalha conosco. Tem incrível facilidade para entrar em contato com espíritos, mas sempre negou seus dons, embora seja óbvio para mim o fato dela só ter encontrado muito dos seus casos devido a mensagens do além. Ela se recusa a levar esse seu lado a sério, nem gosta de tocar no assunto. Tenho a impressão que ela não poderá negar esse aspecto de sua vida por muito tempo…

Alguém fez uma queima de arquivo. Morte por pânico, ou um aparente suicídio do Doutor Euclides não me convence. Essa invasão só vale para frustrar quem estiver tentando acobertar o sumiço das crianças. O falecido era paranóico, mas não por segurança. Muito fácil entrar, nenhum alarme. Miguel é exagerado na forma de conduzir a situação, mas era de se esperar de um louco. Um louco esperto e inteligente, mas nem por isso menos perturbado. Ressaltando o perigo oculto nas sombras sempre pronto para nos devorar, como fizera com seus amigos anos atrás. Ilusões. Miguel fora mais uma vítima da ditadura, torturado até ficar paraplégico, seus colegas da guerrilha urbana morreram nos porões da repressão. Não podia culpá-lo por criar uma fantasia tão elaborada pra escapar da realidade. Tive a vida ganha durante muito tempo. Mas ele sabe coisas, ah sim, sabe muito mais desses mistérios aí fora do que o governo ou a polícia querem saber. Com ele e José pelo menos rumamos pra algum lugar, em vez de mais um beco sem saída. Hum, o escritório. Coisas voaram por aqui. Mas o armário está intacto, a cópia da chave funciona e o pacote de papel pardo com o material do Doutor Euclides está aí. Conferir o pacote… Sim, tudo certo, tudo fácil.

Sinto as sombras se moverem. Um barulho. Viro-me com a pistola na mão. Papéis flutuam no ar, arrastados por um estranho vento de lugares fechados. Não há ninguém. São eles. Ignorar, guardar o envelope na mochila e sair. O vento frio arrepia a nuca. Detesto isso! Mas sempre acontece antes de algo dar errado. Sempre. Nesse ponto tenho de dar o braço a torcer.

Viro-me para a porta escura que deixei aberta. No canto do olho há outro movimento. A mão desloca ar antes de o fedor me alcançar. Muito próximo. Solto a perna de baixo para cima, sinto a resistência do quadril num golpe para aleijar. Mas a figura escura aproveita o movimento para agarrar a coxa e me empurrar o ombro. Dedos fortes demais, nem sentiram o golpe. Não cair. O braço estica em frente à testa dele e automaticamente o impacto do tiro vem através de seus dedos antes do som da pistola. Ele afrouxa e eu aproveito o movimento para inclinar para trás e já atirar por baixo do queixo de outro vulto escuro e sem camisa. Girar o corpo e ficar reta. Um terceiro na porta. Eles fedem. Rápido. Outra bala entre os olhos. Estão no corredor. Casa térrea. Começo a correr para a janela fechada, já tem quatro no meu caminho. Atirar pra esquerda, atirar pra direita. Mirar a cabeça. Não parar, não pensar em mais nada. Saltar, ombro, girar, atirar para trás.

A mochila protege a cabeça, vidro, madeira e as raízes no chão do pátio molhado. Erga os olhos ignore a chuva. Já tem um na janela. Mais uma bala no rosto. Ficar em pé, correr, recarregar. Muito lenta, levo um golpe na barriga. Arma pronta, terra molhada, chuva na cara, mal defendo o soco. Nariz sangrando e ele vem por cima tentando segurar a pistola. Forte, fedido, vai quebrar meu pulso. Sua outra mão vira devagar meu braço esquerdo contra o solo. Parece que ele vai conseguir. Parece. Giro o pulso quase até quebrar, mas consigo o ângulo. O tiro no pescoço praticamente arranca a cabeça. Jogo o corpo pro lado, sento preparada. Arma em riste. Mas não há ninguém lá.

Atrás de mim, pés na água. Apoio no braço esquerdo e me viro, a pistola termina o trajeto apontando pro rosto de uma criança. Uma menina de no máximo três anos num vestido branco me olha sorrindo, suas bochechas gordinhas salpicadas de chuva. O vestido e o cabelo de cachos castanhos mal começaram a se molhar e a velha boneca de pano dela tem um rosto estranho, um olhar muito sério para um brinquedo. A voz me custa a voltar, enquanto abaixo a arma e tento limpar o sangue do nariz. No insólito da situação, só lembro de pedir desculpas e perguntar se ela está bem.

– Você é educada moça bonita. Mas vai morrer mesmo assim. Então você vai saber até onde se fica com frio.

Quando sinto agulhas no estômago e sou jogada para trás, a garganta apertada por mãos invisíveis, sinto entre as pancadas vazias que ela pode estar certa.

Sol está caída na chuva, lutando com o vazio. O som de tiros seguiu o mau presságio nas fotos do celular. Em quem diabos ela está atirando tantas vezes? Ainda ouço os tiros abafados quando desço as escadas correndo. Quase escorrego duas vezes. Ninguém na rua. Se ouviram os tiros fizeram questão de nem acender as luzes. Estou entrando no pátio e Sol está apanhando do nada na frente de uma garotinha sorridente. Deus, o que é isso?! Um som de carro e movimento. Reconheço o motor da van. Ela ainda está longe. Sol está sufocando. A menina para de sorrir e me olha com uma cara triste:

-Moço tô com medo! Faz parar, faz! Leva eu embora, por favor.

A vozinha meiga é um soco no estômago, naquele cenário. Parece ser a coisa certa apontar minha pistola pro horrível rosto asfixiado da mulher suja de lama na minha frente. Mas não, não combina.

-Moço, você é amigo?

-Pare. Deixe-a em paz e vá embora.

-Você tá brabo?

-Larga ela quieta e sai daqui!

A criança retrai o canto da boca num sorriso impossível para alguém daquela idade.

-Ah, mas ela vai ficar bem quietinha… Logo, logo, essa vadia morre…

Atravessei o quintal em fúria e estou apontando a arma para uma menininha. Aquela situação parece embaçar com a chuva e existir em algum outro lugar, não ali. Não sou eu fazendo isso. Está longe como o olhar da criança e o frio na minha barriga. Os olhos dela me atravessam como se eu fosse feito de vidro, um boneco numa vitrine tentando apontar com seu dedo de cristal para um desastre onde não pode interferir.

-Não me assusta não moço.

-Pára!

-Não quero…

-Chega!

Ela ia dizer alguma coisa, sua boquinha se abriu num beiçinho torto, então senti o coice como se estivesse atirando pela primeira vez na vida.

A bala entrou na testa e a criança se deslocou inteira para trás, ainda em pé. Os sapatinhos deixaram trilhas retas na lama. Algo voou por detrás de seus cabelos. A cabeça pendeu para trás em um movimento brusco. Sol começou a respirar e tossir. A menina lentamente foi endireitando a cabeça e olhou para mim. O rosto triste tinha rachaduras partindo do buraco perfeitamente redondo no alto dos olhos. Parecia uma boneca de porcelana quebrada e ao mesmo tempo, carne e osso. A voz também parecia rachada, mas ainda era infantil:

-Você é livre moço? Espero que seja… É tão bom…

E caiu com um som seco. Eu a toquei incrédulo com o que fizera. E era realmente uma boneca de porcelana. Larguei enojado e entrei mecanicamente na van recém parada na entrada da casa. Consegui ajudar Sol a entrar e fechar as portas, enquanto Miguel arrancava dali gritando conosco. Tive até um momento de contemplação vendo a habilidade dele em trocar as marchas na van adaptada. Foi o último pensamento antes de ajoelhar num canto, enfiar a cabeça nos joelhos e misturar lágrimas á calça úmida e enlameada.Ter emoções em momentos assim parece um luxo, mas me deixo levar.

O orfanato cheirava a bolo e refresco. Era uma tarde ensolarada e as crianças brincavam pelos corredores. Eu sentia ainda os hematomas que não marcavam minha pele, mas doíam como se eu tivesse me recuperando de um atropelamento. Uma das assistentes sociais ligara no telefone do meu disfarce, informando a chegada de uma correspondência. Ela estava convencida de que eu era do colégio onde Euclides lecionava história e ficara responsável pelas cartas dele. Por alguma estranha razão, a família do doutor nunca soubera do orfanato. Ele fizera questão de esconder essa faceta de sua vida. Logo as cartas não tinham para onde ir e não se importavam de entregá-las á simpática moça de taileur azul, ali no corredor esperando tão pacientemente. Pelo mesmo motivo fora tão fácil conseguir copiar a chave do armário da casa do professor.

Na correspondência de Euclides talvez houvesse alguma referência direta a o contato misterioso citado por ele em suas anotações pessoais. Isso aparentemente facilitava nosso caminho incerto dali em diante, mas eu mal conseguia pensar no futuro. Não conseguia digerir os acontecimentos da semana passada. Só queria pegar as cartas e ir embora. Sumir por um tempo antes de voltar a perseguir crianças desaparecidas. Esquecer aquele frenesi de tiros frios e calculistas em vultos que não estavam lá. Só me deixar envolver pela boa e velha normalidade do orfanato, ouvindo o som das crianças brincando.

Uma menininha morena tinha parado na minha frente. Chupava o dedo e segurava um cobertorzinho. Tinha um olhar curioso, como de quem poderia ficar horas contemplando um adulto sem motivo algum. Sorri para ela, era o ato mais sincero dos últimos dias e igualmente contemplativo. Ela avançou devagar e tirou o dedo da boca:

-Você se acha muito esperta, mas não passa de uma vadia.

-Quê?!

-Mariana, você quer ir ao banheiro?

-Tia, quero bolo!

-Tudo bem, mas vamos ao banheiro antes.

-Tá.

A mulher chegara de súbito e agora saía segurando a criança pela mão. Mariana Olhava para trás, vendo-me receber distraída o maço de cartas. Eu só conseguia prestar atenção na menina. Ela sorriu sardonicamente e piscou o olhinho. E virou para frente. Retirei-me perplexa.

Enquanto saía, reparei nos meninos curvando a cabeça num cumprimento respeitoso e irreal demais. Irreal como as crianças, todas me observando sérias e com um olhar levemente arrogante, certas de sua infinita superioridade. Como as meninas apontando repetidamente para as bonecas em seus braços enquanto me olhavam fixamente. Algumas riam irônicas, outras com um olhar de raiva muda, mas todas foram acompanhando meus passos até a porta da frente, até eu desaparecer da vista da última delas. Eu estava enganada? Apenas exagerando o comportamento de simples crianças? Porém minha guarda estava baixa pra não pensar em horrores. Não ia ignorar aquele fato. O insólito ganhava contornos de realidade, contrariando meu desejo por explicações mais sólidas. Porém, o que esperar quando as sombras pouco a pouco invadiam dias de sol?

A tarde de sol agora tinha um recheio gélido. E eu me sentia oca como um brinquedo barato. Uma escuridão sem nome me esperava tricotando em algum lugar do futuro, e eu não tinha mais pressa de chegar. Estavam lá, mas eu não queria olhar. Era importante não ver os fios, pois não havia liberdade na escuridão. Somente maiores e novas trevas.

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    • Demian
    • 29 de novembro de 2008

    História criada como pano de fundo para um típico grupo de investigadores do desconhecido, por ocasião do meu primeiro contato com a nova versão do World of Darkness.

    Esse ainda pode fazer uma ponta em um projeto futuro.

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