O Doce Aroma do Lar

Filipe acordou com uma risada de mulher. Sonhando e com a cabeça cheia de imagens, tentou se situar. Estava no escritório, o monitor apagado. Devia ter cochilado uns quinze minutos ou mais! Assustado olhou ao redor, ergueu-se discretamente. Não estavam rindo dele. Alguém esquecera a porta do corredor aberta, os risos vinham da copa. Sentiu-se observado. Breno tinha testemunhado seu sono, e não disfarçava o sorriso irônico enquanto voltava a digitar rapidamente no computador. Patético, parecia dizer com uma rápida troca de olhares. Breno era um desses tipos ordeiros e eficientes, educado mas repleto de um sentimento de superioridade em relação a todos ao seu redor, até mesmo os patrões. Não valia a pena chamar a atenção dos colegas para a soneca de um funcionário. Felipe torceu os lábios. Sua moral andava baixa no escritório, depois do término com Ana. Ele fora trocado por um executivo com um cargo melhor, sua vida trombou com um clichê amargo. Acabara de comprovar que o envolvimento amoroso com uma colega de trabalho era problemático. Ninguém comentava, mas todos sabiam. Ele tentava seguir em frente. Mergulhou no trabalho e em uma maratona de fins de semana em bares e boates. Até o momento só conseguira ficar cansado. Mas não era assombrado pelas lembranças.

Tentou recordar o sonho, era como uma memória da infância, mas muito rápido, só ficara a imagem de inúmeros pés femininos de salto alto, o barulho de uma máquina de escrever antiga. Sua mãe? Não imaginava qual o significado, mas o movimento frenético no sonho causava um incômodo que reforçava sua idéia de mudar de secção por um tempo. Procurou por Arnaldo o gerente de setor e perguntou onde ficava a administração de recursos humanos. Arnaldo, um cinqüentão atlético com uma discreta barriginha, conversava com um grupo de funcionárias na copa quando foi interpelado. Seu rosto, de uma constante tranqüilidade zen budista, era a fusão entre um olhar paternal e um sorriso sutilmente sarcástico. Ele parecia não só antecipar as respostas, mas também sentia as motivações, mesmo quando o caso não era óbvio como o de Felipe:

– Olívia, oitavo andar, sala oitocentos e oito.

Tudo com ó, pensou alegre Felipe enquanto tomava o elevador. A campainha anunciou a chegada e ele caminhou pelo sóbrio corredor preto e branco. Viu a porta logo após a primeira intersecção e notou que era próximo á sala de reuniões e no andar da chefia. Ele nunca reparara naquela porta envernizada de preto brilhante, apesar de ter passado por ali tantas vezes. Entrou sem bater.

A sala era um limpo conjunto de linhas horizontais e verticais, móveis de ângulos retos, tons de preto, cinza e algum amarelo. Poltronas quadradas de couro guardando a porta, uma cadeira de metal e couro em frente á grande mesa de laca negra, cuidadosamente ordenada. Sobre sua larga superfície havia espaço de sobra para diversas miudezas de escritório: resmas de papel, clipes, lápis, apontadores elegantes e diversos outros objetos. O centro e a frente da mesa eram de vidro, deixando á mostra o corpo inteiro da secretária. Ele olhou para o carpete cinza, se seguiu para os sapatos pretos, com detalhes laterais brancos.

Ela estava sentada com as pernas juntas para o lado direito, enquanto o resto do corpo torcia levemente para a esquerda, onde estava o laptop no qual ela escrevia com rapidez. Meias pretas, saia com as laterais brancas um terno feminino quase inteiramente branco, a não ser por uma faixa central preta, alargada na gola e aí mesclada com branco. A faixa triangular de uma blusa branca continha o decote. Um fino colar dourado com um pingente, uma pulseira também dourada justa no meio do antebraço direito e nenhum anel. Um rosto de pequenas bochechas, maçãs salientes e nariz pequeno. Sobrancelhas grossas e testa alta de onde brotava um grande cabelo liso e negro. Ela usava óculos retangulares de aro preto e fino, pequenos e bonitos. O batom um tom de uva escuro, os lábios finos. Sua pele era levemente morena, naturalmente bronzeada. Seu corpo não era voluptuoso, tinha um equilíbrio entre curvas gentis e ossos angulosos, como a sala. Como uma só entidade.

Os segundos nunca foram tão longos para Felipe como naquele momento. Ao perceber o quanto reparava nela, notou as paredes de vidro fosco, atrás das quais silhuetas escuras trabalhavam. Fechou a porta com um estalo preciso da fechadura nova.

– Olá, bom dia. Em que posso ajudá-lo?

A voz dela começava um pouco aguda e terminava grave. Ela largou o laptop e colocou os braços e as pernas para frente, na direção dele. Esmalte escuro. O sorriso era formal, mas o olhar aparentemente ingênuo atravessava Felipe como se ele fosse transparente. Em vez de intimidar acalmava, seduzia, era familiar como a infância.

– Olá senhorita Olívia, sou Felipe Oliveira, vim tratar de uma possível transferência para outra seção.

– Tudo bem, explique-me seu problema.

Ele hesitou. Disse algumas frases vagas sobre o seu ambiente de trabalho e seu histórico na empresa. Contemplou novamente a beleza de Olívia e desviou os olhos para os objetos sobre a mesa. Reparou em uma miniatura de metal brilhante, usada como peso de papel. Antes de perguntar ela antecipou-se:

– Isso é uma reprodução de um tear de Jacquard. Meus ancestrais trabalharam com tecelagem por mais de um século. Infelizmente não sobrou nenhuma fortuna para minha geração, apenas esse pedaço de metal ficou, como souvenir de tempos áureos.

– Minha mãe foi secretária, inclusive, se não me engano, em uma antiga sucursal desta firma, tempos atrás. Isso me garantiu o estágio inicial aqui. É um emprego tão importante quanto qualquer outro.

– Claro que é. Sua mãe trabalhou aqui? Hum… Deixe-me ver… Ah sim, ainda está na base de dados. Foi em uma firma menor que adquirimos faz vinte anos. Porque você achou que ia se enganar a respeito disso?

– Ah, na verdade não lembro muito da minha mãe. Ela sumiu quando eu tinha sete anos, fui criado por um tio. Na adolescência soube que ela tinha morrido. Aparentemente, antes de morrer ela mexeu uns pauzinhos para me garantir um lugar nesta empresa.

– Influente ela não?

– É, ela foi.

Ele olhou para Olívia um pouco incomodado com o próprio excesso de sinceridade. Sentia-se em uma armadilha montada pela figura da secretária. Ela olhou-o, deixando o silêncio envolver a sala enquanto sorria com cumplicidade. Ele manteve-se sério.

– Vou ver o que posso fazer por você Felipe.

Olívia levantou e dirigiu-se á porta negra atrás dela. Era idêntica a porta do escritório, mas sem o número. Ela abriu-a o suficiente para passar e Felipe viu apenas um quarto escuro e lampejos de luz fluorescente acendendo pouco antes de a porta fechar. Estranho. Sala do chefe ou armário de servidores? Bom, não importava agora. Olhou para o laptop dela, uma planilha era visível. Pegou a miniatura do tear e a analisou. Detalhes muito trabalhados. Uma peça bem conservada apesar da antiguidade aparente. E tinha uma data gravada…

Viu a maçaneta girando e botou a miniatura no lugar. Olívia voltara com um ar vitorioso. Ela sorria como se o conhecesse há anos, com uma cara de irmã mais velha. Ele achou agradável a idéia, pois era filho único.

– Tudo certo. A partir de amanhã você vai trabalhar aqui nos recursos humanos, na sala ali ao lado. Bem vindo.

Ele apertou a mão dela, contente com a resolução rápida. Porém a situação era um pouco estranha, indecifrável. Como o perfume de Olívia levantado no aperto de mão. Algo entre melão e cera de abelha.

***

O volume e a intensidade do trabalho não haviam mudado no novo setor, mas Felipe sentia-se muito melhor. A grande sala não tinha divisória, a parede de vidro deixava entrar bastante luz, apesar da película escura. Havia mais vasos de flores nas mesas de seus reservados colegas. A vida pessoal não tinha dado nenhum salto ainda, apesar da expectativa. Com o tempo tudo mudaria. Essa nova perspectiva deixava Felipe tranqüilo. O mais próximo de um incômodo agora era a curiosidade em relação á Olívia.

Da mesa dele era possível ver a silhueta dela por trás do vidro fosco. Ás vezes no meio do trabalho, ele olhava para lá, observado os movimentos da secretária. Ela ficava a maior parte do tempo na mesa, saía na hora do almoço e entrava duas vezes por dia na sala atrás dela. A parede após as laterais de vidro da sala de Olívia sugeria um recinto não muito grande para uma sala de chefia, mas ele descartara essa possibilidade. Nunca flagrara alguém saindo de lá, nem no fim do expediente. A secretária era a única a freqüentar a salinha. E a porta nunca parecia estar trancada.

Entre ele e Olívia havia uma silenciosa cumplicidade, feita de olhares e sorrisos, mas não passava disso. Era estranho como aquela sensação surgira tão rápida e se instalara entre, até então, dois desconhecidos. Ela o atraía, mas ao mesmo tempo era uma irmãzinha. Ele viu-se tomado pela curiosidade de conhecer todos os detalhes da vida dela. E o mais intrigante era a porta.

Um dia ele almoçou um sanduíche mais cedo. Quando a sala ficou vazia ele viu Olívia fechar o notebook, pegar uma bolsa e sair. Levantou-se sem pressa e caminhou devagar, como se fosse embora. Ao entrar na sala da secretária não viu através do vidro ninguém no outro setor gêmeo ao seu. Andou até a porta e ficou parado um minuto, ouvindo apenas o zumbido suave dos computadores nos escritórios vazios. Tinha meia hora. Tocou a maçaneta reta e sentiu um arrepio. Ela era morna e sua mão estava fria. Abaixou-a e a porta abriu. Ele entrou no quarto escuro e fechou-a atrás de si.

Os flashes de luz branca o cegaram. Quando os olhos conseguiram afastar a escuridão ele viu-se em uma sacada de formas fluidas, iluminada de violeta. O espaço era oval, de paredes curvas e parecia feito de carapaças de inseto esculpidas em resina. Atrás de si a porta mantinha suas linhas retas, mas ficara transparente, assim como a parede onde estava, deixando visível o escritório. A sacada tinha duas projeções laterais, como pedaços de asas translúcidas protegendo a beirada, cujo meio era aberto. Com dois passos ele chegou à beira.

Á sua frente e ao seu lado, para cima e para baixo, sacadas idênticas sucediam-se, á beira de um abismo sem fim aparente, gomos diáfanos de espigas gigantes. Geometricamente encaixadas umas nas outras, um jogo de montar feito com o corpo de insetos. As paredes desenhavam uma ampla elipse e antes de encontrarem-se nos cantos do horizonte, voltavam a ficar paralelas, á distância de não mais de duas delas uma da outra. Aquilo era o único indício da arquitetura maior do favo. Estalos longínquos e seqüenciais ecoavam no ambiente. Em cada sacada as paredes transparentes deixavam ver escritórios com uma única mesa á frente da porta de entrada. Fora esse detalhe nenhum tinha estilo igual. Alguns tinham o desenho ultrapassado, ou assumidamente de época, outros extremamente modernos ou muito exóticos, naquele momento todos vazios.

Felipe devia estava em parte atordoado, mas sentia-se em casa e isso era perturbador. Examinou as sacadas tentando achar algo ou alguém conhecido. Uns vinte metros para baixo dele viu um corpo. Um esqueleto em um casaco masculino caído em um canto ao lado da porta. Não era o único. Grudado a um beiral quase no nível dele estava o cadáver mumificado de uma criança, provavelmente um menino. Ele começou a ficar com medo de tudo aquilo. Longe no alto algo se movia. Era um inseto indistinto. Trabalhava sozinho em um gomo. Ele teve o impulso de fugir, mas a criatura sentiu o olhar de pavor e desceu em um forte zumbido. Não houve tempo de correr para á porta, compridas patas pretas o cercaram com um triângulo cuja ponta fechava sua única saída. Outras duas garras o apertaram pelos braços e ergue-o próximo ao inseto negro. O bicho era um amálgama robótico entre uma aranha e abelha, com uma cabeça de formiga no final de um grosso pescoço. Com um silvo a cabeça começou a retrair para trás e ele percebeu que o pescoço era a parte superior de um tórax de mulher e a cabeça um capacete, de onde uma mulher de pele cinza-azulada surgia. O rosto fora uma das poucas lembranças que restara. Ela era sua mãe.

– Fffiillipheff… kuan too tteemp querrridd!!

O nome dele parecia pronunciado por uma válvula pneumática. O resto era a mistura de quelíceras e uma garganta humana. Felipe lacrimejava, entre o pavor e a emoção.

– Mãe?

Ela ajustou o tom de voz, enquanto expunha a cabeça, mostrando cabelos que pareciam um feixe de grossos nervos negros. Em suas pupilas verdes círculos concêntricos giravam e expandiam.

– Não meu bem… Sua mãe morreu. Ela cumpriu sua função, seu corpo já foi processado na câmara decompósita, sua consciência foi integrada ao sistema de roteamento pluridimensional. Nasci do mesmo molde que ela, compartilhei a mesma consciência, vi você ser gestado e nascer. Sinto ainda o mesmo afeto… Oh Felipe, você estava tão perto de nós e nem sabíamos, perdoe-nos.

– Mas eu não entendo, o que é isso tudo?

– Fora do tempo, fora do espaço, fora. Onde nasceste chegamos séculos atrás. As primeiras tricotavam aos pés das guilhotinas. Depois vieram os teares mecânicos e começamos a abrir caminho. Nós somos toleradas meu bem, pegamos tão pouco, os que vigiam já se acostumaram conosco…

– Muito vago, nada disso faz sentido para mim.

Ao longe ouvi um som de tiros e um clarão explosivo a surpreendeu com a boca aberta. O rosto de minha mãe soltou um olhar cheio de afeto e um ronronado mecânico.

– Um transeunte, usando o ninho como atalho entre lugares. Nada gentil. Fique aí querido, tenho trabalho. Tome, isto vai te esclarecer.

Ela beijou a boca de Felipe, regurgitando um fluido espesso em sua garganta. Sem tempo de reagir, engoliu a substância doce e cortante como vidro moído, enquanto era rapidamente depositado com cuidado em um canto da sacada. O capacete de cabeça de formiga aranha fechou-se e ela partiu em um salto. Ele sentou-se contra a parede, pensando imediatamente na posição do esqueleto no outro nível mais abaixo. O gosto da substância dava náuseas e tremores no corpo. Teria ele um destino idêntico aquele desconhecido?

Ele olhou para os escritórios, e em cada um deles ao mesmo tempo a porta se abriu. Inúmeras mulheres fizeram os mesmos movimentos, andando em sincronia até suas mesas e depositando suas bolsas. Elas caminharam até a porta de cada sacada e as abriram em uníssono. Ele viu Olívia entrar, escutou o som da porta e o eco de seus saltos altos, amplificado em uma ensurdecência crescente, á medida que ela chega á beira do gomo. Ela olhou para ele e sorriu, como se esperasse sua presença. Olívia abriu os braços e começou um canto fino, todas as outras a seguiram. O canto virou um mantra, o mantra um gorgolejo e então uma série de estalos, zumbidos e vibratos, uma cacofonia lancinante penetrava os ouvidos de Felipe. Mesmo tapando com as mãos, o som atravessava a pele e era sentido nos ossos. O mal estar causado pela gosma da sua pseudo-mãe não ajudava, ele agora começava a ter visões. O conhecimento ia sendo absorvido pelo seu corpo, e ele relaxava. A cacofonia cresceu, diminuiu e subitamente parou. As secretárias voltavam devagar para suas salas. Olívia se aproximou dele e acariciou seu rosto, o perfume dela estava mais forte, feria as narinas, embriagava.

– Calma Felipe, tudo vai ficar bem. Você vai conseguir o que deseja. Há um emprego esperando por você lá fora, e uma parceira há de vir logo lhe fazer companhia, você vai ver. Sinta o conhecimento invadindo, aprenda, abandone a casca. Pois o seu agora é isso Felipe, apenas uma casca.

Ela o beijou sua testa. Era como estar com febre. O lugar inteiro curvava para um lado ou para o outro. Lentamente ele começou a ouvir a história dos seus antepassados, enquanto o tremor o abandonava. Olívia saiu e ele observou sua delicada mão fechando a porta devagar. O esmalte das unhas. Naquele dia ela tinha vindo de amarelo. E aquela cor preencheu o ambiente antes de tudo ficar escuro. A dor sumira. Ele sabia quem era.

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    • Demian
    • 29 de novembro de 2008

    A idéia veio pela manhã e tentei durante o resto do dia transforma-la em texto, mas parei antes de descrever a secretária. Passaram-se algumas semanas até eu conseguir escrever mais alguns parágrafos e o texto só foi finalizado um mês depois á exceção de uma pequena correção feita hoje.

    Como tantas outras, é uma idéia derivada de um sonho cujo enredo completo esqueci.

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