Cinema Rodízio

Ele acordou antes dos outros. Eram quatro e quarenta e nove da manhã e os onze minutos restantes apagaram a lembrança dos sonhos. Levantou-se e a madrugada de Porto Alegre ainda de pé sussurrava atrás do vidro do sexto andar. Foi tomar um banho frio. Após, nu e seco, sentou-se em lótus respirou fundo e tentou alcançar os outros. Todos dormiam e seus sonhos eram como cenas chuviscadas dentro de bolas de gude. Visualizou sua mão se erguendo e abriu os dedos imaginados. As esferas se aproximaram e ele foi puxado para entre elas, como se houvesse uma súbita gravidade. O truque exclusivo começou a funcionar e ele viu o futuro próximo.

São Paulo estava de pé lendo as notícias, Rio ainda nadava nos sonhos confusos da embriaguez no meio da semana, Brasília já seguia no trânsito rumo ao emprego ganho em concurso, Curitiba estava se despedindo da esposa. Natal estava no ônibus indo pra escola. E ele conversava com a colega do jornal no horário do almoço, e só ela existia naquele momento. Tentou adiantar mais as cenas. Uma mulher no apartamento em frente subia numa cadeira para arrumar uma lâmpada e em uma grande praça, o Rio conversava com alguém, mas essa pessoa era apenas um borrão escuro. Porto Alegre caiu subitamente em si mesmo, era manhã recém chegada e já estava vendo tudo de fora. São Paulo o observava da mesa do café, o ar levemente contrariado que Porto tinha na cara, sempre que algum de seus interesses era frustrado. Desde menino a mesma cara birrenta.

São Paulo olhava seus outros eus com mais distanciamento, como se todos fossem pueris. Ás vezes ele, e conseqüentemente os outros, pensava se seria por ser mais velho. Curitiba tinha um ano a menos e era o único casado, mas a estabilidade amorosa e um filho de quatro anos não o tornou menos despreocupado com a vida, talvez tudo lhe parecesse muito fácil, e aos trinta e sete tinha chegado ao apogeu. As impressões de cada um a respeito de si mesmo nunca eram claras aos outros. Era evidente, porém a facilidade de se existir ao mesmo tempo em tantas cidades, e conseguir segurar a barra dos seus outros eus, garantindo um emprego na empresa de um conhecido de outro estado, ou através de um empréstimo se fosse o caso. Mas a parte financeira da vida em comum estava resolvida, até havia um estágio esperando Natal, quando ele quisesse. Agora valia mais curtir a vida multifacetada, usando a metáfora do Rio de Janeiro, um constante entrar e sair de salas de cinema, que assistiam a si mesmas. Um impulso, um devaneio e se estava no outro. Uma dúvida em Brasília, e Curitiba dava a dica. Porto Alegre lia um livro, Natal já não tinha mais dúvidas na escola. São Paulo assistia ao filme, Rio de Janeiro fazia a resenha sentado no bar, e já recomendava pros amigos.

Ao mesmo tempo podiam permanecer horas sozinhas consigo, embora depois de algum tempo esses momentos se integrassem à memória daquele coletivo de um homem só. Quando pensavam nessa definição visualizavam um ônibus praticamente vazio, onde todos eram os únicos passageiros. Estranhamente nunca conseguiam ver o motorista…

O Rio de Janeiro teve de subir a serra certa vez. Foi um mês depois da madrugada mal dormida de Porto Alegre. Era um encontro de estudantes em Juiz de Fora. Brasília Aproveitava as horas ociosas do trabalho para secar as jovens universitárias, São Paulo prestava atenção nas conversas em busca de uma nova pauta, Natal olhava também as moças, Curitiba prestava atenção na arquitetura da federal. Então na tarde do segundo dia quando Rio de Janeiro caminhava no campus, naquele momento que ser permitia ficar sozinho, depois de curada a ressaca, quando afastava ou outros e admirava a paisagem introspectivo, sentiu mais um. De tão surpreso nem conseguiu avisar os outros, quando tentou percebeu que não adiantava. Seu até então desconhecido novo eu parecia bloquear as outras cidades. E ele sempre achou que Juiz de Fora não teria tanta influência.

Ele se aproximou sem pressa, deixando suas memórias fluírem para o Rio de Janeiro. Eram lembranças sem um denominador comum, lacunas familiares numa vida compartilhada, decoração ambiente despercebida ao longo dos anos. O professor universitário era o mais velho, mas como todos eles, aparentava menos. Sessenta e quatro anos… Para o Rio de Janeiro parecia uma realidade distante.

O professor sentou-se ao lado dele, saudando sem um aperto de mãos. Tal gesto forçaria um retorno à coletividade:

– Você pode não viver tanto quanto eu, sabia? Nenhum de vocês, nós, podemos.

– É, hã, porque nós, eu, puxa…

– confunde esse novo tipo de separação de agora né? Parece que não vai ter volta.

– Nem fale nisso! É muito esquisito.

– Mas vocês já sabiam no fundo que faltava algo. Já partilhei vários sonhos com vocês.

– É verdade, tô lembrando de relances… Mas porque você não está conosco, quer dizer…

– Deve ser o tumor. Diagnóstico de câncer cerebral. Começou quando Natal fez um ano. Você tinha Dez. Mas eu prefiro achar que é uma questão de sentimento, sabe? Sou mais emotivo que os outros, eles foram ficando muito frios com a idade. Você tá seguindo nesse rumo.

– Não, sou assim…

– Eu sei, de vez em quando não é mesmo. Você ainda idealiza a alma gêmea. É romântico como eu. Já achou ela?

– Ah não sei, tem uma amiga minha, mas não tenho certeza.

– Procure ter.

– Tá, só um minuto. A gente vai morrer por conta do seu câncer? Como você ficou vivo todo esse tempo?

– Vai saber? Não me preocupo com isso, depois de ter sido desenganado já vivi muito. Só sei que o tumor está lá por conta da cegueira de vocês. Estou em todos, mas sou só um ruído de fundo. É interessante, ter a ilusão de que sou autônomo. Eu gosto da sua metáfora, me sinto o lanterninha, ou o projetista.

– quando foi a última vez que nos reunimos todos?

– Olha, foi naquela festa em Belo Horizonte, três anos atrás, mas vocês não me notaram. Estavam na mesma sintonia.

– Mas teve um antes disso, posso sentir.

– Sim, mas você tinha só doze anos, ainda não tinha acordado para nós.

– E como foi esse encontro?

– Puro Onanismo.

– Hã?

– Nem queira saber. Você teve pesadelos não se lembra?

– É eu sei. Só não consigo definir a sensação. Mas deixe. Porque tenho de ter certeza sobre ela?

– Você precisa achar sua Rita de Cássia.

– Então ela não é lenda. Nosso reflexo, aquela que também é múltipla. Mas por que eu preciso?

– Pra aproveitar enquanto é tempo, curtir essa felicidade. Mas principalmente, porque em uma existência como a nossa quem morre primeiro leva todos. Vale pra elas também. Cada um de nós tem se encaminhado para sua contraparte, menos Porto Alegre, o mais egoísta. Ele tem ignorado a professora de piano, apesar de ela morar no apartamento em frente do outro lado da avenida. Ela está muito depressiva, viver com quatro felinos não é suficiente, o voyeurismo não basta, ela está muito só.

– Porque você não escreve pra Porto, assim como faz com ela?

– Já fiz isso. Ele não dá importância. Acho que ele quer ter vida própria.

– Você não pode ocupar o lugar dele?

– Não é assim simples, não se pode substituir uma peça do quebra-cabeça. Já tenho alguém aqui. Você deve estar vendo ela agora.

– Sim, a imagem está vindo… Hum, aluna sua hein?

– Do mestrado. Bom, o que importa é o seguinte, se a Rita de Porto morrer, ela leva a de Juiz de fora com ela, assim como quem quer que seja aquela que seria ideal pra você. Se eu ficar sozinho a essa altura da vida, não terei mais motivo pra viver. Desânimo acaba com a imunidade…

– Entendi. Mas sabe, você é muito determinista. Apesar de todo esse tempo de vida não temos certeza de nada, eu encontrar você é uma prova disso. Acho que você tem medo, isso é normal. Mas não esperávamos que Natal entrasse no jogo. Quem sabe se ele não veio pra te substituir? Afinal o mais isolado de nós é você… Desculpe o mau jeito, mas é a verdade.

– Tudo bem. Não tenho tido muitas expectativas quanto a nós ultimamente. Você pode estar certo. De qualquer forma, fique atento, quando você encontrar quem lhe corresponde, haverá uma pista. Um perfume, um tremor. Aguarde.

– OK, pode deixar. Foi um prazer conhecê-lo. Podíamos nos encontrar mais vezes.

– É, quem sabe no futuro.

Juiz de fora foi se afastando. Ainda ia demorar um tempo até aquele episódio pertencer a todas as cidades que somos nós. Mas um efeito colateral interessante daquela aura de individualidade de Juiz de Fora foi que o Rio de Janeiro se viu no lugar de Porto Alegre e percebeu neste uma revolta fria contra tudo aquilo que lhe era imposto previamente, como as leis da natureza ou o simples fato de estar vivo daquele jeito compartilhado. Um sentimento adolescente que tinha sobrevivido até os trinta e três anos de seu eu gaúcho. Como se houvesse um mundo a subjugar aos pés. O Rio de Janeiro soltou um longo suspiro, decepcionado.

Nunca tinha se sentido tão imaturo.

Bonecas Partidas

Era noite e uma chuva gélida e grudenta recobria a cidade com sua capa de melancólica umidade. As paredes dos velhos edifícios e o asfalto brilhando sob a luz dos postes, escorriam em um único movimento, lento, constante e monótono. Noite pra ficar em casa. Perfeita pro serviço na residência do Doutor Euclides. Era a nossa chance, pois a família levara o corpo fazia dois dias para ser velado na cidade natal do falecido, deixando a casa intocada. Parecia-me um contra-senso ficar ali naquele prédio abandonado, á distância, atento a qualquer movimento, pronto para avisar Sol pelo rádio. Seria mais fácil ter ficado na frente da casa, afinal era uma invasão relativamente rápida. Achava todo esse clima de espionagem um exagero, mas Miguel tinha uma pressa de quem sabe onde vai cair o próximo raio, e ele geralmente acertava. Não havia nada de místico nisso, até onde sabíamos, era devido aos anos de experiência com o oculto que ele tinha nas costas. Eu preferiria ter conversado com a família, inventado uma história sobre ser um colega de estudos, responsável por cuidar das anotações do falecido. Miguel garantiu, porém, que mesmo tal abordagem dando certo, o livro e o diário desejados já teria desaparecido quando finalmente conseguíssemos entrar no escritório particular do professor. Ele já tinha visto vários sumiços semelhantes ao longo dos anos. Não daríamos chance desta vez para a misteriosa “equipe de limpeza”.

Peguei o binóculo novamente, por hábito e certo nervosismo. A chuva quase anulava sua utilidade. Havia na situação uma pálida semelhança com as muitas tocaias, atrás de cônjuges infiéis que eu fizera, antes do rumo das investigações particulares mudarem, dois anos atrás. O caso da adolescente desaparecida. O pai era um comerciante emergente, com uma pequena rede de lojas de atacado, parecia um seqüestro. Quando eu localizei a chácara onde estavam a garota e suas amigas, dei por confirmadas as suspeitas iniciais da família. Indivíduos mal encarados carregavam ostensivamente armas, estavam sempre de olhos vermelhos, vigiando os arredores em seus passos mecânicos. As garotas dançavam em roda embaixo de uma árvore, a maior parte do tempo. Todos pareciam em transe. Tinha toda a aparência de algum tipo de seita. Telefonei pro meu contato na polícia, era contra as ordens da família da moça, mas eu não ia bancar o herói e enfrentar sozinho dez caras armados, só pra fazer um resgate cinematográfico, arriscando a vida da criança. Estava anoitecendo quando ouvi os tiros e a gritaria. Era hora de me arriscar, a polícia não tinha chegado ainda. Quando cheguei perto da casa, o luar iluminava o que inicialmente pensei serem toras de madeira na grama. Eram os corpos dos bandidos. Corri para dentro de arma na mão e coração na boca. Fiz uma entrada em clássico estilo tático da polícia. Não precisava tanto. Era um filme de horror. Lá dentro, algumas velas iluminavam uma garota de respiração ofegante, coberta de sangue e murmurando frases sem sentido, cercada por um cenário dantesco. Corpos rasgados ao meio, cabeças e braços arrancados, tripas espalhadas no chão e nas grossas vigas do teto, onde parte dos supostos seqüestradores foram jogados. Nem sombra das outras meninas. Pareciam nunca ter estado ali, como buscas posteriores constataram. E a garota sorriu quando cheguei perto com seu casaco cor de rosa, pra cobrir o vestido e todo aquele sangue. “Agora estou livre…” ela dizia. “Livre!”.

Foi internada numa clínica psiquiátrica particular, segundo soube depois. Os pretensos seqüestradores eram pessoas tranqüilas e sem histórico policial. Simples fazendeiros. O caso foi abafado pela família da moça. Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas deixei a história de lado, afinal já tinha cumprido minha parte. Foi quando começaram a aparecer vultos borrados nas fotos de flagrantes nos casos seguintes, ou imagens veladas que arruinavam rolos inteiros de evidências. Foi irritante. Um dia, após uma sessão inteira de fotos perdidas, sentei para ler um pouco e relaxar. Era uma tarde chuvosa, peguei um pequeno livro de couro marrom gasto e envelhecido. O diário do meu avô, que fora praçinha na segunda guerra. Já tinha folhado ao acaso, mas nunca lido seriamente. O texto me capturou por horas, fazendo lamentar o fato de não ter conversado mais sobre esse assunto com meu avô quando ele estava vivo. Na forma como ele escrevia e nas observações feitas, eu percebia traços do comportamento da família, aspectos de caráter ainda visíveis no meu pai. Então aquela passagem. Onde ele relatava a observação à distância de um grupo de soldados italianos. E nos mínimos detalhes lá estavam os olhos vermelhos e a estranha maneira de andar, idêntica aos homens da chácara… Os relatos ficavam mais estranhos, mas infelizmente o diário terminava, indicando a continuidade em outro volume. Essa segunda parte do diário tinha sido vendida junto com a maioria dos livros do meu avô, dez anos atrás e agora estava perdida. Foi procurando por ela que conheci Miguel. Então começamos a investigar as crianças desaparecidas…

Tirei o celular do bolso e apontei para a casa. Era costume guardar fotos de casos agora, graças ás novas tecnologias. Pronto. Não, cheia de riscos de luz. Tiremos outra… É, está melhor. Então a foto se apaga, o celular acende e desliga sozinho. Já vi equipamentos digitais sofrerem essa interferência antes. Droga! Algo muito ruim vai acontecer. Hora de ir pra rua.

A chuva bate num ritmo agradável no teto da van. O café instantâneo ajuda a evitar o sono tentador, que mesmo em situações tensas como essa insiste em aparecer. Penso em José no edifício abandonado. Ele ainda me olha esquisito quando exponho nossa forma de atuar. Toda a situação lhe parece exótica e também um pouco ridícula. Mas no fundo ele sabe que há algo profundamente errado. O Professor Euclides também sabia. Agora esse algo o matou. Mais uma vez cheguei tarde, apenas um par de conversas telefônicas e novamente um obituário. Alguma relação com os sem-teto mortos e seus olhos esbugalhados, na vizinhança do orfanato onde Euclides dava aulas? Eu seguia os casos de crianças desaparecidas fazia tempo, a história do homem do saco ficou mais complicada recentemente, quando surgiram relatos de orelhões tocando nas ruas, do outro lado da linha crianças chorando ou chamando pelos pais. Uma risada grave ao fundo da maioria das ligações, além de chiados familiares para mim. Ruídos que indicavam a interferência de espíritos. Tão evidentes quanto o traficante morto lá fora, a parca luz dos postes provavelmente estava passando através de seus dez buracos de bala. Era como ele geralmente gostava de se manifestar. Embora gostar não fosse um termo apropriado.

Hoje ele não estava falando. Eu sentia sua presença lá fora, ouvia seus passos na chuva e também quando ele tossia à distância. A aparelhagem tinha uma forma peculiar de zumbir quando ele se manifestava. Dava pra sentir que ele estava apreensivo. Isso não era um bom sinal, mas o risco valia a pena. O material do Doutor Euclides ia adiantar em muito toda a pesquisa que tínhamos pela frente, pra tentar entender algo do que acontecia no mundo. Para entender o que acontecera naquela noite na fábrica abandonada, quando fiquei preso nessa cadeira de rodas, entender aquela força invisível que destruiu nosso antigo grupo. Talvez possa clarear minha memória nessa parte. Lembrar não só dos amigos morrendo, mas de seus assassinos. Nos sonhos eles sempre mudam de rosto. Em algum lugar algo me fará lembrar. Porém aí será o começo de outro labirinto…

Temo por esses dois, eles ainda não tem noção em que os envolvi. Porém não há escolha, quando se atrai investigadores do desconhecido como um imã. Ambos praticamente caíram no meu colo. José estava atrás dos mesmos textos quando nos conhecemos pela internet. Sol topou conosco quando investigávamos o caso dos sonâmbulos da praça, pessoas que ouviam vozes chamando e terminavam vagando naquele mesmo lugar até alguém as acordar. Só descobrimos que as vozes pareciam vir da televisão quando essa ficava fora de sintonia na madrugada. Sol acreditava em algum ladrão hipnotizador, mas isso estava longe da verdade. Até hoje estamos com o caso em aberto, o fenômeno parou e não se repetiu mais, até onde sabemos.

Sol é contraditória, me lembra Anita, do antigo grupo. Filha da geração paz e amor, estudante de direito, entrou para a polícia e fez cursos de operações especiais com policiais dos Estados Unidos. Mas agora trabalha conosco. Tem incrível facilidade para entrar em contato com espíritos, mas sempre negou seus dons, embora seja óbvio para mim o fato dela só ter encontrado muito dos seus casos devido a mensagens do além. Ela se recusa a levar esse seu lado a sério, nem gosta de tocar no assunto. Tenho a impressão que ela não poderá negar esse aspecto de sua vida por muito tempo…

Alguém fez uma queima de arquivo. Morte por pânico, ou um aparente suicídio do Doutor Euclides não me convence. Essa invasão só vale para frustrar quem estiver tentando acobertar o sumiço das crianças. O falecido era paranóico, mas não por segurança. Muito fácil entrar, nenhum alarme. Miguel é exagerado na forma de conduzir a situação, mas era de se esperar de um louco. Um louco esperto e inteligente, mas nem por isso menos perturbado. Ressaltando o perigo oculto nas sombras sempre pronto para nos devorar, como fizera com seus amigos anos atrás. Ilusões. Miguel fora mais uma vítima da ditadura, torturado até ficar paraplégico, seus colegas da guerrilha urbana morreram nos porões da repressão. Não podia culpá-lo por criar uma fantasia tão elaborada pra escapar da realidade. Tive a vida ganha durante muito tempo. Mas ele sabe coisas, ah sim, sabe muito mais desses mistérios aí fora do que o governo ou a polícia querem saber. Com ele e José pelo menos rumamos pra algum lugar, em vez de mais um beco sem saída. Hum, o escritório. Coisas voaram por aqui. Mas o armário está intacto, a cópia da chave funciona e o pacote de papel pardo com o material do Doutor Euclides está aí. Conferir o pacote… Sim, tudo certo, tudo fácil.

Sinto as sombras se moverem. Um barulho. Viro-me com a pistola na mão. Papéis flutuam no ar, arrastados por um estranho vento de lugares fechados. Não há ninguém. São eles. Ignorar, guardar o envelope na mochila e sair. O vento frio arrepia a nuca. Detesto isso! Mas sempre acontece antes de algo dar errado. Sempre. Nesse ponto tenho de dar o braço a torcer.

Viro-me para a porta escura que deixei aberta. No canto do olho há outro movimento. A mão desloca ar antes de o fedor me alcançar. Muito próximo. Solto a perna de baixo para cima, sinto a resistência do quadril num golpe para aleijar. Mas a figura escura aproveita o movimento para agarrar a coxa e me empurrar o ombro. Dedos fortes demais, nem sentiram o golpe. Não cair. O braço estica em frente à testa dele e automaticamente o impacto do tiro vem através de seus dedos antes do som da pistola. Ele afrouxa e eu aproveito o movimento para inclinar para trás e já atirar por baixo do queixo de outro vulto escuro e sem camisa. Girar o corpo e ficar reta. Um terceiro na porta. Eles fedem. Rápido. Outra bala entre os olhos. Estão no corredor. Casa térrea. Começo a correr para a janela fechada, já tem quatro no meu caminho. Atirar pra esquerda, atirar pra direita. Mirar a cabeça. Não parar, não pensar em mais nada. Saltar, ombro, girar, atirar para trás.

A mochila protege a cabeça, vidro, madeira e as raízes no chão do pátio molhado. Erga os olhos ignore a chuva. Já tem um na janela. Mais uma bala no rosto. Ficar em pé, correr, recarregar. Muito lenta, levo um golpe na barriga. Arma pronta, terra molhada, chuva na cara, mal defendo o soco. Nariz sangrando e ele vem por cima tentando segurar a pistola. Forte, fedido, vai quebrar meu pulso. Sua outra mão vira devagar meu braço esquerdo contra o solo. Parece que ele vai conseguir. Parece. Giro o pulso quase até quebrar, mas consigo o ângulo. O tiro no pescoço praticamente arranca a cabeça. Jogo o corpo pro lado, sento preparada. Arma em riste. Mas não há ninguém lá.

Atrás de mim, pés na água. Apoio no braço esquerdo e me viro, a pistola termina o trajeto apontando pro rosto de uma criança. Uma menina de no máximo três anos num vestido branco me olha sorrindo, suas bochechas gordinhas salpicadas de chuva. O vestido e o cabelo de cachos castanhos mal começaram a se molhar e a velha boneca de pano dela tem um rosto estranho, um olhar muito sério para um brinquedo. A voz me custa a voltar, enquanto abaixo a arma e tento limpar o sangue do nariz. No insólito da situação, só lembro de pedir desculpas e perguntar se ela está bem.

– Você é educada moça bonita. Mas vai morrer mesmo assim. Então você vai saber até onde se fica com frio.

Quando sinto agulhas no estômago e sou jogada para trás, a garganta apertada por mãos invisíveis, sinto entre as pancadas vazias que ela pode estar certa.

Sol está caída na chuva, lutando com o vazio. O som de tiros seguiu o mau presságio nas fotos do celular. Em quem diabos ela está atirando tantas vezes? Ainda ouço os tiros abafados quando desço as escadas correndo. Quase escorrego duas vezes. Ninguém na rua. Se ouviram os tiros fizeram questão de nem acender as luzes. Estou entrando no pátio e Sol está apanhando do nada na frente de uma garotinha sorridente. Deus, o que é isso?! Um som de carro e movimento. Reconheço o motor da van. Ela ainda está longe. Sol está sufocando. A menina para de sorrir e me olha com uma cara triste:

-Moço tô com medo! Faz parar, faz! Leva eu embora, por favor.

A vozinha meiga é um soco no estômago, naquele cenário. Parece ser a coisa certa apontar minha pistola pro horrível rosto asfixiado da mulher suja de lama na minha frente. Mas não, não combina.

-Moço, você é amigo?

-Pare. Deixe-a em paz e vá embora.

-Você tá brabo?

-Larga ela quieta e sai daqui!

A criança retrai o canto da boca num sorriso impossível para alguém daquela idade.

-Ah, mas ela vai ficar bem quietinha… Logo, logo, essa vadia morre…

Atravessei o quintal em fúria e estou apontando a arma para uma menininha. Aquela situação parece embaçar com a chuva e existir em algum outro lugar, não ali. Não sou eu fazendo isso. Está longe como o olhar da criança e o frio na minha barriga. Os olhos dela me atravessam como se eu fosse feito de vidro, um boneco numa vitrine tentando apontar com seu dedo de cristal para um desastre onde não pode interferir.

-Não me assusta não moço.

-Pára!

-Não quero…

-Chega!

Ela ia dizer alguma coisa, sua boquinha se abriu num beiçinho torto, então senti o coice como se estivesse atirando pela primeira vez na vida.

A bala entrou na testa e a criança se deslocou inteira para trás, ainda em pé. Os sapatinhos deixaram trilhas retas na lama. Algo voou por detrás de seus cabelos. A cabeça pendeu para trás em um movimento brusco. Sol começou a respirar e tossir. A menina lentamente foi endireitando a cabeça e olhou para mim. O rosto triste tinha rachaduras partindo do buraco perfeitamente redondo no alto dos olhos. Parecia uma boneca de porcelana quebrada e ao mesmo tempo, carne e osso. A voz também parecia rachada, mas ainda era infantil:

-Você é livre moço? Espero que seja… É tão bom…

E caiu com um som seco. Eu a toquei incrédulo com o que fizera. E era realmente uma boneca de porcelana. Larguei enojado e entrei mecanicamente na van recém parada na entrada da casa. Consegui ajudar Sol a entrar e fechar as portas, enquanto Miguel arrancava dali gritando conosco. Tive até um momento de contemplação vendo a habilidade dele em trocar as marchas na van adaptada. Foi o último pensamento antes de ajoelhar num canto, enfiar a cabeça nos joelhos e misturar lágrimas á calça úmida e enlameada.Ter emoções em momentos assim parece um luxo, mas me deixo levar.

O orfanato cheirava a bolo e refresco. Era uma tarde ensolarada e as crianças brincavam pelos corredores. Eu sentia ainda os hematomas que não marcavam minha pele, mas doíam como se eu tivesse me recuperando de um atropelamento. Uma das assistentes sociais ligara no telefone do meu disfarce, informando a chegada de uma correspondência. Ela estava convencida de que eu era do colégio onde Euclides lecionava história e ficara responsável pelas cartas dele. Por alguma estranha razão, a família do doutor nunca soubera do orfanato. Ele fizera questão de esconder essa faceta de sua vida. Logo as cartas não tinham para onde ir e não se importavam de entregá-las á simpática moça de taileur azul, ali no corredor esperando tão pacientemente. Pelo mesmo motivo fora tão fácil conseguir copiar a chave do armário da casa do professor.

Na correspondência de Euclides talvez houvesse alguma referência direta a o contato misterioso citado por ele em suas anotações pessoais. Isso aparentemente facilitava nosso caminho incerto dali em diante, mas eu mal conseguia pensar no futuro. Não conseguia digerir os acontecimentos da semana passada. Só queria pegar as cartas e ir embora. Sumir por um tempo antes de voltar a perseguir crianças desaparecidas. Esquecer aquele frenesi de tiros frios e calculistas em vultos que não estavam lá. Só me deixar envolver pela boa e velha normalidade do orfanato, ouvindo o som das crianças brincando.

Uma menininha morena tinha parado na minha frente. Chupava o dedo e segurava um cobertorzinho. Tinha um olhar curioso, como de quem poderia ficar horas contemplando um adulto sem motivo algum. Sorri para ela, era o ato mais sincero dos últimos dias e igualmente contemplativo. Ela avançou devagar e tirou o dedo da boca:

-Você se acha muito esperta, mas não passa de uma vadia.

-Quê?!

-Mariana, você quer ir ao banheiro?

-Tia, quero bolo!

-Tudo bem, mas vamos ao banheiro antes.

-Tá.

A mulher chegara de súbito e agora saía segurando a criança pela mão. Mariana Olhava para trás, vendo-me receber distraída o maço de cartas. Eu só conseguia prestar atenção na menina. Ela sorriu sardonicamente e piscou o olhinho. E virou para frente. Retirei-me perplexa.

Enquanto saía, reparei nos meninos curvando a cabeça num cumprimento respeitoso e irreal demais. Irreal como as crianças, todas me observando sérias e com um olhar levemente arrogante, certas de sua infinita superioridade. Como as meninas apontando repetidamente para as bonecas em seus braços enquanto me olhavam fixamente. Algumas riam irônicas, outras com um olhar de raiva muda, mas todas foram acompanhando meus passos até a porta da frente, até eu desaparecer da vista da última delas. Eu estava enganada? Apenas exagerando o comportamento de simples crianças? Porém minha guarda estava baixa pra não pensar em horrores. Não ia ignorar aquele fato. O insólito ganhava contornos de realidade, contrariando meu desejo por explicações mais sólidas. Porém, o que esperar quando as sombras pouco a pouco invadiam dias de sol?

A tarde de sol agora tinha um recheio gélido. E eu me sentia oca como um brinquedo barato. Uma escuridão sem nome me esperava tricotando em algum lugar do futuro, e eu não tinha mais pressa de chegar. Estavam lá, mas eu não queria olhar. Era importante não ver os fios, pois não havia liberdade na escuridão. Somente maiores e novas trevas.

O Doce Aroma do Lar

Filipe acordou com uma risada de mulher. Sonhando e com a cabeça cheia de imagens, tentou se situar. Estava no escritório, o monitor apagado. Devia ter cochilado uns quinze minutos ou mais! Assustado olhou ao redor, ergueu-se discretamente. Não estavam rindo dele. Alguém esquecera a porta do corredor aberta, os risos vinham da copa. Sentiu-se observado. Breno tinha testemunhado seu sono, e não disfarçava o sorriso irônico enquanto voltava a digitar rapidamente no computador. Patético, parecia dizer com uma rápida troca de olhares. Breno era um desses tipos ordeiros e eficientes, educado mas repleto de um sentimento de superioridade em relação a todos ao seu redor, até mesmo os patrões. Não valia a pena chamar a atenção dos colegas para a soneca de um funcionário. Felipe torceu os lábios. Sua moral andava baixa no escritório, depois do término com Ana. Ele fora trocado por um executivo com um cargo melhor, sua vida trombou com um clichê amargo. Acabara de comprovar que o envolvimento amoroso com uma colega de trabalho era problemático. Ninguém comentava, mas todos sabiam. Ele tentava seguir em frente. Mergulhou no trabalho e em uma maratona de fins de semana em bares e boates. Até o momento só conseguira ficar cansado. Mas não era assombrado pelas lembranças.

Tentou recordar o sonho, era como uma memória da infância, mas muito rápido, só ficara a imagem de inúmeros pés femininos de salto alto, o barulho de uma máquina de escrever antiga. Sua mãe? Não imaginava qual o significado, mas o movimento frenético no sonho causava um incômodo que reforçava sua idéia de mudar de secção por um tempo. Procurou por Arnaldo o gerente de setor e perguntou onde ficava a administração de recursos humanos. Arnaldo, um cinqüentão atlético com uma discreta barriginha, conversava com um grupo de funcionárias na copa quando foi interpelado. Seu rosto, de uma constante tranqüilidade zen budista, era a fusão entre um olhar paternal e um sorriso sutilmente sarcástico. Ele parecia não só antecipar as respostas, mas também sentia as motivações, mesmo quando o caso não era óbvio como o de Felipe:

– Olívia, oitavo andar, sala oitocentos e oito.

Tudo com ó, pensou alegre Felipe enquanto tomava o elevador. A campainha anunciou a chegada e ele caminhou pelo sóbrio corredor preto e branco. Viu a porta logo após a primeira intersecção e notou que era próximo á sala de reuniões e no andar da chefia. Ele nunca reparara naquela porta envernizada de preto brilhante, apesar de ter passado por ali tantas vezes. Entrou sem bater.

A sala era um limpo conjunto de linhas horizontais e verticais, móveis de ângulos retos, tons de preto, cinza e algum amarelo. Poltronas quadradas de couro guardando a porta, uma cadeira de metal e couro em frente á grande mesa de laca negra, cuidadosamente ordenada. Sobre sua larga superfície havia espaço de sobra para diversas miudezas de escritório: resmas de papel, clipes, lápis, apontadores elegantes e diversos outros objetos. O centro e a frente da mesa eram de vidro, deixando á mostra o corpo inteiro da secretária. Ele olhou para o carpete cinza, se seguiu para os sapatos pretos, com detalhes laterais brancos.

Ela estava sentada com as pernas juntas para o lado direito, enquanto o resto do corpo torcia levemente para a esquerda, onde estava o laptop no qual ela escrevia com rapidez. Meias pretas, saia com as laterais brancas um terno feminino quase inteiramente branco, a não ser por uma faixa central preta, alargada na gola e aí mesclada com branco. A faixa triangular de uma blusa branca continha o decote. Um fino colar dourado com um pingente, uma pulseira também dourada justa no meio do antebraço direito e nenhum anel. Um rosto de pequenas bochechas, maçãs salientes e nariz pequeno. Sobrancelhas grossas e testa alta de onde brotava um grande cabelo liso e negro. Ela usava óculos retangulares de aro preto e fino, pequenos e bonitos. O batom um tom de uva escuro, os lábios finos. Sua pele era levemente morena, naturalmente bronzeada. Seu corpo não era voluptuoso, tinha um equilíbrio entre curvas gentis e ossos angulosos, como a sala. Como uma só entidade.

Os segundos nunca foram tão longos para Felipe como naquele momento. Ao perceber o quanto reparava nela, notou as paredes de vidro fosco, atrás das quais silhuetas escuras trabalhavam. Fechou a porta com um estalo preciso da fechadura nova.

– Olá, bom dia. Em que posso ajudá-lo?

A voz dela começava um pouco aguda e terminava grave. Ela largou o laptop e colocou os braços e as pernas para frente, na direção dele. Esmalte escuro. O sorriso era formal, mas o olhar aparentemente ingênuo atravessava Felipe como se ele fosse transparente. Em vez de intimidar acalmava, seduzia, era familiar como a infância.

– Olá senhorita Olívia, sou Felipe Oliveira, vim tratar de uma possível transferência para outra seção.

– Tudo bem, explique-me seu problema.

Ele hesitou. Disse algumas frases vagas sobre o seu ambiente de trabalho e seu histórico na empresa. Contemplou novamente a beleza de Olívia e desviou os olhos para os objetos sobre a mesa. Reparou em uma miniatura de metal brilhante, usada como peso de papel. Antes de perguntar ela antecipou-se:

– Isso é uma reprodução de um tear de Jacquard. Meus ancestrais trabalharam com tecelagem por mais de um século. Infelizmente não sobrou nenhuma fortuna para minha geração, apenas esse pedaço de metal ficou, como souvenir de tempos áureos.

– Minha mãe foi secretária, inclusive, se não me engano, em uma antiga sucursal desta firma, tempos atrás. Isso me garantiu o estágio inicial aqui. É um emprego tão importante quanto qualquer outro.

– Claro que é. Sua mãe trabalhou aqui? Hum… Deixe-me ver… Ah sim, ainda está na base de dados. Foi em uma firma menor que adquirimos faz vinte anos. Porque você achou que ia se enganar a respeito disso?

– Ah, na verdade não lembro muito da minha mãe. Ela sumiu quando eu tinha sete anos, fui criado por um tio. Na adolescência soube que ela tinha morrido. Aparentemente, antes de morrer ela mexeu uns pauzinhos para me garantir um lugar nesta empresa.

– Influente ela não?

– É, ela foi.

Ele olhou para Olívia um pouco incomodado com o próprio excesso de sinceridade. Sentia-se em uma armadilha montada pela figura da secretária. Ela olhou-o, deixando o silêncio envolver a sala enquanto sorria com cumplicidade. Ele manteve-se sério.

– Vou ver o que posso fazer por você Felipe.

Olívia levantou e dirigiu-se á porta negra atrás dela. Era idêntica a porta do escritório, mas sem o número. Ela abriu-a o suficiente para passar e Felipe viu apenas um quarto escuro e lampejos de luz fluorescente acendendo pouco antes de a porta fechar. Estranho. Sala do chefe ou armário de servidores? Bom, não importava agora. Olhou para o laptop dela, uma planilha era visível. Pegou a miniatura do tear e a analisou. Detalhes muito trabalhados. Uma peça bem conservada apesar da antiguidade aparente. E tinha uma data gravada…

Viu a maçaneta girando e botou a miniatura no lugar. Olívia voltara com um ar vitorioso. Ela sorria como se o conhecesse há anos, com uma cara de irmã mais velha. Ele achou agradável a idéia, pois era filho único.

– Tudo certo. A partir de amanhã você vai trabalhar aqui nos recursos humanos, na sala ali ao lado. Bem vindo.

Ele apertou a mão dela, contente com a resolução rápida. Porém a situação era um pouco estranha, indecifrável. Como o perfume de Olívia levantado no aperto de mão. Algo entre melão e cera de abelha.

***

O volume e a intensidade do trabalho não haviam mudado no novo setor, mas Felipe sentia-se muito melhor. A grande sala não tinha divisória, a parede de vidro deixava entrar bastante luz, apesar da película escura. Havia mais vasos de flores nas mesas de seus reservados colegas. A vida pessoal não tinha dado nenhum salto ainda, apesar da expectativa. Com o tempo tudo mudaria. Essa nova perspectiva deixava Felipe tranqüilo. O mais próximo de um incômodo agora era a curiosidade em relação á Olívia.

Da mesa dele era possível ver a silhueta dela por trás do vidro fosco. Ás vezes no meio do trabalho, ele olhava para lá, observado os movimentos da secretária. Ela ficava a maior parte do tempo na mesa, saía na hora do almoço e entrava duas vezes por dia na sala atrás dela. A parede após as laterais de vidro da sala de Olívia sugeria um recinto não muito grande para uma sala de chefia, mas ele descartara essa possibilidade. Nunca flagrara alguém saindo de lá, nem no fim do expediente. A secretária era a única a freqüentar a salinha. E a porta nunca parecia estar trancada.

Entre ele e Olívia havia uma silenciosa cumplicidade, feita de olhares e sorrisos, mas não passava disso. Era estranho como aquela sensação surgira tão rápida e se instalara entre, até então, dois desconhecidos. Ela o atraía, mas ao mesmo tempo era uma irmãzinha. Ele viu-se tomado pela curiosidade de conhecer todos os detalhes da vida dela. E o mais intrigante era a porta.

Um dia ele almoçou um sanduíche mais cedo. Quando a sala ficou vazia ele viu Olívia fechar o notebook, pegar uma bolsa e sair. Levantou-se sem pressa e caminhou devagar, como se fosse embora. Ao entrar na sala da secretária não viu através do vidro ninguém no outro setor gêmeo ao seu. Andou até a porta e ficou parado um minuto, ouvindo apenas o zumbido suave dos computadores nos escritórios vazios. Tinha meia hora. Tocou a maçaneta reta e sentiu um arrepio. Ela era morna e sua mão estava fria. Abaixou-a e a porta abriu. Ele entrou no quarto escuro e fechou-a atrás de si.

Os flashes de luz branca o cegaram. Quando os olhos conseguiram afastar a escuridão ele viu-se em uma sacada de formas fluidas, iluminada de violeta. O espaço era oval, de paredes curvas e parecia feito de carapaças de inseto esculpidas em resina. Atrás de si a porta mantinha suas linhas retas, mas ficara transparente, assim como a parede onde estava, deixando visível o escritório. A sacada tinha duas projeções laterais, como pedaços de asas translúcidas protegendo a beirada, cujo meio era aberto. Com dois passos ele chegou à beira.

Á sua frente e ao seu lado, para cima e para baixo, sacadas idênticas sucediam-se, á beira de um abismo sem fim aparente, gomos diáfanos de espigas gigantes. Geometricamente encaixadas umas nas outras, um jogo de montar feito com o corpo de insetos. As paredes desenhavam uma ampla elipse e antes de encontrarem-se nos cantos do horizonte, voltavam a ficar paralelas, á distância de não mais de duas delas uma da outra. Aquilo era o único indício da arquitetura maior do favo. Estalos longínquos e seqüenciais ecoavam no ambiente. Em cada sacada as paredes transparentes deixavam ver escritórios com uma única mesa á frente da porta de entrada. Fora esse detalhe nenhum tinha estilo igual. Alguns tinham o desenho ultrapassado, ou assumidamente de época, outros extremamente modernos ou muito exóticos, naquele momento todos vazios.

Felipe devia estava em parte atordoado, mas sentia-se em casa e isso era perturbador. Examinou as sacadas tentando achar algo ou alguém conhecido. Uns vinte metros para baixo dele viu um corpo. Um esqueleto em um casaco masculino caído em um canto ao lado da porta. Não era o único. Grudado a um beiral quase no nível dele estava o cadáver mumificado de uma criança, provavelmente um menino. Ele começou a ficar com medo de tudo aquilo. Longe no alto algo se movia. Era um inseto indistinto. Trabalhava sozinho em um gomo. Ele teve o impulso de fugir, mas a criatura sentiu o olhar de pavor e desceu em um forte zumbido. Não houve tempo de correr para á porta, compridas patas pretas o cercaram com um triângulo cuja ponta fechava sua única saída. Outras duas garras o apertaram pelos braços e ergue-o próximo ao inseto negro. O bicho era um amálgama robótico entre uma aranha e abelha, com uma cabeça de formiga no final de um grosso pescoço. Com um silvo a cabeça começou a retrair para trás e ele percebeu que o pescoço era a parte superior de um tórax de mulher e a cabeça um capacete, de onde uma mulher de pele cinza-azulada surgia. O rosto fora uma das poucas lembranças que restara. Ela era sua mãe.

– Fffiillipheff… kuan too tteemp querrridd!!

O nome dele parecia pronunciado por uma válvula pneumática. O resto era a mistura de quelíceras e uma garganta humana. Felipe lacrimejava, entre o pavor e a emoção.

– Mãe?

Ela ajustou o tom de voz, enquanto expunha a cabeça, mostrando cabelos que pareciam um feixe de grossos nervos negros. Em suas pupilas verdes círculos concêntricos giravam e expandiam.

– Não meu bem… Sua mãe morreu. Ela cumpriu sua função, seu corpo já foi processado na câmara decompósita, sua consciência foi integrada ao sistema de roteamento pluridimensional. Nasci do mesmo molde que ela, compartilhei a mesma consciência, vi você ser gestado e nascer. Sinto ainda o mesmo afeto… Oh Felipe, você estava tão perto de nós e nem sabíamos, perdoe-nos.

– Mas eu não entendo, o que é isso tudo?

– Fora do tempo, fora do espaço, fora. Onde nasceste chegamos séculos atrás. As primeiras tricotavam aos pés das guilhotinas. Depois vieram os teares mecânicos e começamos a abrir caminho. Nós somos toleradas meu bem, pegamos tão pouco, os que vigiam já se acostumaram conosco…

– Muito vago, nada disso faz sentido para mim.

Ao longe ouvi um som de tiros e um clarão explosivo a surpreendeu com a boca aberta. O rosto de minha mãe soltou um olhar cheio de afeto e um ronronado mecânico.

– Um transeunte, usando o ninho como atalho entre lugares. Nada gentil. Fique aí querido, tenho trabalho. Tome, isto vai te esclarecer.

Ela beijou a boca de Felipe, regurgitando um fluido espesso em sua garganta. Sem tempo de reagir, engoliu a substância doce e cortante como vidro moído, enquanto era rapidamente depositado com cuidado em um canto da sacada. O capacete de cabeça de formiga aranha fechou-se e ela partiu em um salto. Ele sentou-se contra a parede, pensando imediatamente na posição do esqueleto no outro nível mais abaixo. O gosto da substância dava náuseas e tremores no corpo. Teria ele um destino idêntico aquele desconhecido?

Ele olhou para os escritórios, e em cada um deles ao mesmo tempo a porta se abriu. Inúmeras mulheres fizeram os mesmos movimentos, andando em sincronia até suas mesas e depositando suas bolsas. Elas caminharam até a porta de cada sacada e as abriram em uníssono. Ele viu Olívia entrar, escutou o som da porta e o eco de seus saltos altos, amplificado em uma ensurdecência crescente, á medida que ela chega á beira do gomo. Ela olhou para ele e sorriu, como se esperasse sua presença. Olívia abriu os braços e começou um canto fino, todas as outras a seguiram. O canto virou um mantra, o mantra um gorgolejo e então uma série de estalos, zumbidos e vibratos, uma cacofonia lancinante penetrava os ouvidos de Felipe. Mesmo tapando com as mãos, o som atravessava a pele e era sentido nos ossos. O mal estar causado pela gosma da sua pseudo-mãe não ajudava, ele agora começava a ter visões. O conhecimento ia sendo absorvido pelo seu corpo, e ele relaxava. A cacofonia cresceu, diminuiu e subitamente parou. As secretárias voltavam devagar para suas salas. Olívia se aproximou dele e acariciou seu rosto, o perfume dela estava mais forte, feria as narinas, embriagava.

– Calma Felipe, tudo vai ficar bem. Você vai conseguir o que deseja. Há um emprego esperando por você lá fora, e uma parceira há de vir logo lhe fazer companhia, você vai ver. Sinta o conhecimento invadindo, aprenda, abandone a casca. Pois o seu agora é isso Felipe, apenas uma casca.

Ela o beijou sua testa. Era como estar com febre. O lugar inteiro curvava para um lado ou para o outro. Lentamente ele começou a ouvir a história dos seus antepassados, enquanto o tremor o abandonava. Olívia saiu e ele observou sua delicada mão fechando a porta devagar. O esmalte das unhas. Naquele dia ela tinha vindo de amarelo. E aquela cor preencheu o ambiente antes de tudo ficar escuro. A dor sumira. Ele sabia quem era.

Enquanto Isso na Boate

Um lampejo laranja ofuscante e escuridão. Escuridão total. O silêncio abafado de um espaço pequeno envolve. Nada, nenhum pensamento ou lembrança, esclarece o acontecido. Mas o olho se acostuma, sensível à ausência de luz e ele tateia o grande retângulo à frente, até esbarrar em um dispositivo que ilumina o cubículo.

Que estranho aposento! Estantes metálicas nas paredes, forradas com caixas coloridas de vários tamanhos, envoltas em desenhos coloridos, de seres bizarros e personagens épicos, empunhando espadas ou bacamartes incomuns. E também placas de aparência metálica e fios azuis, além de objetos inidentificáveis para o ser ali presente.

Entre todos estes, dois itens se destacam como se tivessem luz própria, perfeitamente familiares. Uma faca prateada até o cabo, pequena, com uma lâmina de base larga, a partir da qual o desenho de uma chave se espalha. Uma chave composta de dentes retilíneos e paralelos, gravada nos dois lados da lâmina. O outro é um pequeno livro vermelho, com capa e lombada lisas. Novo, porém estranhamente velho, é a sensação que causa. Aberto na primeira página, quase em branco, ou melhor, vermelho, ele vê em quadrados, linhas, pontos, signos ilegíveis. Mas eles se movem! Aos poucos fica legível a única frase da página: Pegue a faca e o livro, abra a porta e saia. Apague a luz antes.

As instruções são praticamente uma leitura dos instintos da criatura. O lado de fora é um corredor iluminado por uma fraca luz esverdeada que vem do encontro das paredes com o teto e forrado por inteiro com algo macio que lembra pêlos curtos. À esquerda há uma outra porta entreaberta, emanando um cheiro conhecido e excitante. Lá dentro meia luz, uma cadeira próxima à fresta e uma mesa no canto onde um casal copula, de costas para porta. Os largos olhos de pupilas verticais percebem algo errado. Comparam a mão: Azul e de unhas negras. Longe do padrão local, róseo e transparente. O olhar foca no casal e sua mão vai mudando lentamente, até uma sensação de segurança se instalar. Na cadeira roupas dobradas. A criatura as veste suavemente na penumbra. Depois segue pelo corredor.

Este termina numa sala ampla, onde vários indivíduos jovens estão sentados em frente de caixas luminosas onde imagens passam aceleradamente. São batalhas, em essência, mas ela não repara nos detalhes. Busca uma saída, numa parede de vidro ao fundo e passa sem ser notada. Embora o responsável pelos recrutas, um rapaz pálido, cheirando á introspecção e timidez a veja e sorria. A criatura não entende a nova sensação de incômodo causada pela troca de olhares. Mas não importa.

Outro corredor. A parede de vidro atrás dela é escura por fora. O corredor é cinza e largo, com um teto bem alto, de onde pendem grandes fontes de luz bem espaçadas entre si, dando o efeito que se está em um ambiente ao ar livre, embora coberto. Ela segue na única direção onde parece haver uma saída e repara na ausência de som dos seus pés descalços. Sorri com a novidade. Há uma bifurcação. Um som forte e repetitivo vem da extremidade esquerda, enquanto na direita há uma escada. Olhos castanhos escuro espiam o livro que cabe na mão: Suba as escadas, diga boa noite e que estão lhe esperando.

No primeiro lance um homem em roupas angulosas de tecido preto vigia do alto da escada, ao lado de uma porta. Os olhos estão cobertos por pedaços de vidro escuro em uma fina armação metálica. A voz que fala com ele já adquiriu um tom local agradável, sem a força crepitante do fogo. A porta estala e abre. Um corredor largo com duas pequenas janelas de metal fechadas desperta uma sensação de familiaridade. A porta no extremo abre sozinha e dá acesso a uma sala alta e ampla, onde em uma mesa no centro um homem velho espera.

O homem e a mesa parecem vir da mesma época. Os entalhes e o estilo dos arabescos na tampa, o verniz antigo na madeira refletindo o brilho no rosto sulcado pela idade, os sólidos pés em forma de patas mitológicas sustentando mais por respeito do que por necessidade, um olhar inabalável e sereno, como de uma besta acordada no início da criação e que jamais repousa. Atrás dele uma cortina vermelha cobre um grande quadro, denunciado pelas bordas da moldura. Cercando a cortina em um arranjo elegante, estantes de livros, armas, máscaras e mapas, iluminados pela luz indireta e amarelada de luminárias douradas. Dos dois lados da porta de entrada, um mosaico de retângulos coloridos mostra várias cenas, corredores já percorridos, a sala dos recrutas, ambientes coloridos de uma exótica taverna. Ela pensa em como todos enxergam na semi-obscuridade constante daquele lugar e lembra dos guardas lá fora.

– Os óculos escuros deles enxergam a verdadeira natureza das coisas.

Não parece estranho como ele seguiu sua linha de raciocínio. Esse detalhe e todo aquele ambiente parecem naturais a ela como sua própria casa. Como um recanto conhecido á beira da estrada, pelo qual sempre se passa a caminho do trabalho. O mais curioso é como as palavras soam compreensíveis após um curto atraso na pronúncia.

– Aproxime-se.

Ela abandona o centro do desenho intrincado, no grande tapete onde estava e chega a uma das quatro cadeiras de veludo verde. O velho a olha inexpressivo, enquanto pega um pequeno objeto preto na mão e aponta para o mosaico em movimento. Um dos retângulos amplia-se e o rosto de um homem jovem é mostrado em vários ângulos diferentes.

– O alvo. Sua licença de caça vai até o amanhecer. O contrato padrão. Após extrair seu prêmio, você deve substituir por isto.

Ele empurra uma pequenina caixa quadrada pela mesa. Dentro dela uma brilhante jóia octogonal e transparente, do tamanho de uma bola de golfe. Ela gira a gema na mão, sente seu peso e num gesto rápido desloca o maxilar o suficiente para engoli-la com um estalido. Não há forma mais prática de carregar. Com o semblante inabalado, o velho lhe estende uma folha de pergaminho, aonde entre glifos coloridos, pequenos símbolos vão mudando de forma até se tornarem legíveis. Ela abre o livrinho vermelho e os mesmos signos cambiantes lhe indicam a ação correta. Ele a olha fixamente.

– Ainda desorientada?

– Não mais.

Ela fura a ponta do dedo com a adaga e desenha no espaço vazio do pergaminho. O sangue parece animar as coras da folha por um momento e então vai ficando menos brilhante. O velho guarda o pergaminho em uma gaveta e pela primeira vez faz uma expressão sutilmente alegre.

– A propósito, boa escolha de figurino, caiu muito bem para a noite de hoje. Mas vai precisar de sapatos. Tenho este par aqui, sem custo adicional nem compromissos.

Ele bota na mesa um para de sapatos de verniz azul escuro, ocasionalmente combinam com o vestido. Ela pega sem hesitar.

– Sim, façamos da maneira local, pés desnudos são demasiado incomuns para o ambiente. Quanto á escolha, foi circunstancial. Meu instinto tem uma tendência a ser sensato.

– Bom senso minha cara, é a primeira virtude que abandonará o senhor B. quando lhe ver. Boa sorte.

Ela levantou, olhou o próprio corpo e sorriu. As antigas armadilhas continuavam pegando novos pássaros. Certas coisas nunca mudam.

***

Após a saída dela, o velho homem pegou uma sacola de pano da gaveta e espalhou seu conteúdo pela mesa. Poliedros brilhantes de metal rolaram mudos no revestimento de couro.

– Seus melhores dados senhor B., esta noite. Não que seja de alguma valia.

Mas eu prometo me esforçar. É o mínimo a fazer por um bom cliente. Boa sorte.

Um Homem Doce

Devia fazer sentido. Olhar aquela linha divisória e tomar uma decisão. Fato encadeado e de conseqüências óbvias. É tão simples de usar, até perde o sentido. Nem mesmo uma linha divisória ou aquelas cores diferentes seriam necessárias, quando um aroma entre metal eletrificado e grama molhada deixa um sutil arrepio no corpo inteiro e um calor invade o abdômen. Diferentes sensações, diferentes acessos. Os rodízios do banquinho redondo estão repousando agora, seus movimentos cessaram a ausência de razão em tudo o que há. No entanto, no eixo entre meus pés paralelos, meus cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, há o anúncio de salto adiado. Como só um lobo seria capaz, se ainda existissem lobos não fabricados. Porém a presa sou eu. Porque tanto drama?

Olho a parede translúcida do apartamento arredondado. A cidade é o horizonte. Parece estar chovendo. Pelo menos, três quilômetros acima do chão, tantas luzes parecem ser gotículas refletindo sem fim numa floresta molhada, com muitos balões e pássaros passando. Ou então a visão poética de um míope. Eu sei o que está lá fora. Posso revisitar em detalhes, como tópicos num relatório, mas não agora. Há uma cama arrumada deste lado, esperando com o sonho dos órgãos, envolta no perfume milenar de lençóis frescos e travesseiros frios. A cama vermelha e redonda do outro lado está amarrotada, desfeita e até federia à tecnoquímica no meu sangue, se não se limpasse sozinha. Dotada de consciência, desdenharia sua pequena irmã verde, por ser a preferida.

Estou de pé, fingindo não perceber tal fato. Como se flutuasse lá fora, contemplando a cidade, em vez de olhar para a cama, a poltrona e a cozinha embutida. Vamos, Vamos. Sentir a diferença. Eu já devia estar acostumado. Os sapatos se desapertam enquanto passo a linha e a música começa. Suas nuances logo serão apenas vibração sonora, um guia para meu corpo inerte, como o tambor anacrônico de um xamã sintético. Uma satisfação desenha em meu rosto, linhas da acupuntura ativadas para dilatar as narinas e relaxar o corpo. Tudo é ironia. E meus pensamentos baixam os olhos preocupados com isso. Devia mudar o aroma para sândalo. O aroma que anuncia aonde real e virtual são apenas palavras. Uma palavra. A poltrona é de couro preto-violáceo, transgênico. Além da água mineral, um extrato de sementes de pimenta no copo, a guisa de drinque. Reclino-me levemente em todo aquele conforto planejado. Absorvo o quarto com os olhos, expiro e então falo: Queda.

Peptídeos cuidadosamente fabricados se movem para os respectivos encaixes. Moléculas sintéticas adentram aos milhões as fendas sinápticas e hormônios projetados viajam rápido, naquilo tradicionalmente conhecido como sangue. Deviam lhe dar outro nome nestes dias. Agudo açúcar, limão e vinho seco na língua substituindo qualquer gosto. O som escorre por um ralo, sumindo num salto final, zumbindo depois. A pele fica para trás, tudo que sobra de um corpo implodido evapora. Rápida, a amônia vira orvalho e se desfaz no odor de livros novos de papel. No escuro dos olhos, o piscar de um ponto de luz branca se esparrama em um mosaico de cores básicas, que vibram branco antes de se fundirem.

E estou numa campina a perder de vista, açoitada pelo vento frio. Apesar das calças e da grossa blusa comprida, sinto tudo em detalhe, agradável como deve ser. Aqui no ambiente de entrada é um eterno pôr-de-sol. O céu transita suavemente entre o laranja e o violeta. Sou uma mulher cuja face se alterna entre a meia-idade e a juventude. Fico ali olhando o cenário, em devaneio, braços cruzados nas costas. Então caminho até a beira de um abismo, onde começa uma noite escura e estrelada. Lá embaixo, a luz de um luar inexistente, revela detalhes da paisagem. Fico entretido olhando os animalzinhos prateados, pastando a beira de lagoas onde diferentes fases da lua estão refletidas. Ergo a cabeça e pronuncio: Estrutura.

Apesar de ter configurado comandos de voz, tudo é rápido, síncrono, a diferença entre pensar e falar só se nota quando estou indeciso. O cenário detalhado se desconstrói em um fundo branco. Linhas de palavras e números aparecem de todas as direções, cercando a imagem feminina, que se torna um aglomerado de formas geométricas. Colunas, vigas de imagens compactas e alternantes me cercam, um cilindro de idioma gira lentamente como um anúncio. A imagem do quarto com meu corpo deitado se repete em quatro paredes, estática. Ali, em algum lugar, indicadores corporais cumprem sua função informativa de modo belo. O som é de sementes descendo por um tubo de bambu. Ícones diversos flutuam. A estrela de cinco pontas vem até mim, do meio do cubismo da interface, seu pentágono central aumentando, até o tamanho de uma grande porta negra. Atravesso, deixando para trás o avatar surreal da mulher, ouvindo música e trabalhando em pinturas tridimensionais interativas, editando fotografias. O pentágono encolhe, deixando a visão surreal para trás. A mesma imagem que qualquer sistema de rastreio irá encontrar, caso me sonde hoje.

A verdadeira satisfação vem quando abandono os pensamentos excessivamente sensíveis do artista gráfico, sua hesitação ensaiada, suas metáforas românticas. Relaxo da disciplina de fazer-se inofensivo. Avanço na escuridão e os retângulos brilhantes vão surgindo como quadros em um interminável corredor. O primeiro á minha direita é um blog técnico, programação de personalidades artificiais. Focalizo na mente novidades na área e linhas vão se preenchendo no retângulo com minhas novas dicas. Ao mesmo tempo viro para o retângulo da esquerda e escrevo o novo capítulo do romance periódico que contribui com parte do meu financiamento: Uma inteligência artificial apaixonada por humanos, perseguida por seus criadores, navegando entre amores frustrados e hardwares precários em busca de um lugar ao sol. O estilo das novelas dos anos cinqüenta do século vinte caiu bem na narrativa.

Atualizo um blog sobre bonsai, outro sobre a engenharia de grandes pontes, revejo a programação criativa dos bots que cuidam dos meus outros periódicos, modifico o comportamento da psicóloga virtual da minha sala de aconselhamento afetivo, enquanto consulto minha agenda financeira. Ao término dos trinta segundos dedico-me ao contrato da vez. Um tubo cristalino que começa a fluir ao meu lado é a rede privada de cirurgia á distância. Minha identidade de IA consultiva já está logada. Visto-a como luvas descartáveis. Na lista de cirurgias disponíveis localizo uma extração de tumor, começando agora. Nenhuma restrição de audiência. Logo estou lá, a velocidade de acesso da IA não deixa perceptível nenhuma transição. O acesso aos sensores da sala é como uma cacofonia de orquestras afinando. Limito a percepção á apenas o corpo feminino nu deitado na mesa e o braço robótico cirurgião, ambos flutuando em um negro vazio.

O braço está abrindo o Abdômen. Contemplo a beleza juvenil da moça de quarenta e seis anos, sua pele sem falhas, enquanto acesso o cirurgião. Apenas uma interação de aprendizado entre sistemas especialistas. Coloco os sensores do compartimento de fármacos em retro alimentação de sinais. Em millisegundos, junto com a anestesia e os anticoagulantes, moléculas desenhadas para reagir ao meu tom de voz e liberar a passagem de ferormônios hipnagógicos estão no sangue dela, aguardando apenas o encontro desta noite. Além de o clássico jantar á luz de velas, uma interação mais íntima será necessária, para baixar as defesas da encarregada da comissão de investimentos e fechar o contrato. A companhia paga bem por negociações arranjadas, e velhos métodos, nos dias de hoje, nunca foram mais eficazes.

Derrubados os sistemas de segurança, só restará a ela a boa e velha força de vontade. E um desafio de vez em quando é uma bem vinda felicidade em um mundo tão previsível. Vou torcer. Quem sabe seja ela?

Abandono a rede de cirurgia e o cheiro de anti-séptico. Vou voltando ao avatar do artista com um sorriso interno. Sintonizo quem está sonhando ligado ao sistema de aprendizagem noturna e insiro um velho número de sapateado. Grande parte da cidade vai cantarolar a melodia durante a semana. Provavelmente vai tocar no restaurante. Os sonhadores são pequenas miniaturas de luz debaixo de um chão de vidro negro e vou dançando por sobre eles, enquanto saio do ambiente criptografado. Vai querida tenha força, tenha fibra, dance docinho. Sei que estou tirando vantagem de você. Faça seu homem feliz. Seja minha melhor garota, não me desaponte. Estou chegando Virgínia… Penso na minha farsa de artista, lembro de toda tecnologia no correndo no meu sangue. É uma pena querida, mas já vão anos e anos sem nenhum homem doce…

Cubo Mágico

Ele Olhou para os dois homens de terno se aproximando. Um magro de cabelos castanhos curtos, ajeitando a gravata de um jeito ensaiado e cansativamente icônico, o outro, cabelos pretos encobrindo a nuca, mais alto e musculoso que o primeiro, um “gorilão limpinho”. Fora um corte retrô-futurista nas roupas, eles eram um clichê chegando ao beco. O magro afastou o terno no peito, como quem vai sacar uma arma ou um cigarro. Com um olhar explodi os dois contra a parede. Os pedaços do magro ficaram no chão, os do outro começaram a ficar azuis e fluíram para um molde de um novo corpo. O demônio de Ashencroft tomou forma, inicialmente nu. Sua pele começou a escurecer para o azul marinho e inchar abaixo do pescoço, até que um novo terno se formou. Ele alongou o pescoço enquanto os chifres terminavam de se curvar e gesticulou rapidamente com os três dedos da mão direita, um cigarro surgiu flutuando dentro de uma pequena esfera transparente e perfeita. Ele puxou a mão de volta e pegou o cigarro elegantemente, que acendeu em contato com o ar. Deu uma tragada e andou dois passos, e percebi que não notara se ele tinha cascos ou pés. E nesse momento me dei conta que não lembrava por que estava ali.

– Mas que modos senhor Geist, só viemos conversar, quer dizer…

Comprimi-o até o tamanho de uma bola de basquete e um segundo depois, de tênis. A cena foi semelhante á primeira, só a bola de carne azul parada no ar escorreu mais rápido.

– Você terá que usar de meios mais efetivos se quiser me destruir permanentemente…

Pensei em fogo e ele se incendiou instantaneamente. As chamas brancas foram ficando azuis, delas emergindo o mesmo demônio de Ashencroft. Já tinha outro cigarro na mão e a última labareda o acendeu antes de sumir. Ele ajeitou a gravata de riscas azuis e brancas.

– Francamente senhor Geist…

Era tudo tão natural para mim, menos aquele branco na mente. Eu devia estar ali? O próprio cenário estava todo errado. Eu era William Geist e trabalhava com programação de ambientes virtuais extremos. Mas… Será possível?

– Bom, se você me permite, tenho uma proposta…

Pare e apenas pense. Que diabos é um demônio de Ashencroft? E como eu sabia disso?

Subitamente percebi letras quase apagadas, como vidro néon surgindo no ar ao lado do ombro dele. Eram azuis e diziam Ashencroft. A fumaça do cigarro dele as destacou por uma última vez e elas ficaram invisíveis de novo.

– Precisamos de um homem com seus talentos. Por mais que esteja perdido, não há necessidade de passar sua vida aqui como um mendigo…

Letras no ar… Hum. Eu devia estar jogando algum RPG imersivo. Meu passatempo preferido, isso eu sabia, apesar da falta de consistência em outras lembranças da minha vida. Olhei para minhas mãos. Aproximei a direita e prestei atenção nos detalhes. Nenhuma rebarba. Tinha cheiro de pele. Apertei-a. Meu corpo era bem sólido. O cenário não possuía nenhuma distorção. A luz se derramava da faixa de céu azul entre os prédios do beco, iluminado a poeira que subia e as marcas no rosto do demônio, os anéis cinza claro de seus chifres curvos.

Nossa. Quantos processadores gráficos eu tinha em casa?

– Há certo lugar onde sua presença se faz necessária senhor Geist, para, digamos, manter a coerência do cenário…

Bem, era um jogo? Teria travado comigo dentro? Difícil. Há sistemas de segurança pra esses casos. Tentei chamar menus e nada, podiam estar rodando em segundo plano. Apenas pense. Eu estava em primeira pessoa, melhor tentar uma mudança de perspectiva Com uma súbita leveza, sai do meu corpo para cima, olhando a própria nuca por trás, até ficar uns cinco metros de mim. O demônio olhava nos meus olhos.

-… Há certos elementos que não… Ah, exibindo seu corpo etérico, claro, claro. Que gentil. Por sinal, espíritos também não me afetam…

Comandei meu corpo para a parede da direita. Ele trombou com ela. Fique encostado. Nenhuma sobreposição do cenário ao modelo… Que coisa. Caminhei ao redor do demônio, ele não parava de falar. Andei para quase fora do beco, ele me seguiu, ainda falando. Parecia um comportamento típico de personagem. Uma seqüência cinemática interativa antes de uma missão. Bem óbvio. Se fosse um jogo on-line eu já teria sido desconectado nos primeiros segundos do travamento. Chamar menu de novo. Nada. A insubstancialidade não apresentou nenhuma vantagem nesse quesito. O hábito era jogar com amigos. Seria um projeto levado para casa?

– Senhor Geist, não deve ser tão difícil me escutar, ainda mais dividido em dois…

Comentários irônicos. Velho recurso na construção de comportamentos automáticos de personagem. Nenhum grande atrativo até agora, neste jogo. Porcaria de bug. Gritei pelo suporte técnico, talvez a voz funcionasse. Nada. Calma, lembre, lembre… Mas o que? Uma vida pacata. Só isso. Nenhuma explicação para aquele momento. Só frases do manual de segurança: O jogo não é uma viagem sem retorno. Um usuário sempre volta. Nenhum programa consegue se sobrepor permanentemente aos sentidos do usuário. Saber de tudo isso não adiantava nada.

– Um homem com suas “qualidades”, pode resolver essa situação facilmente…

Olhei para o demônio. Ele era parte de um enredo particular de um cenário inexistente. Reentrei no corpo sem perceber nenhum novo detalhe da situação. Façamos algo novo. Ergo o indicador e médio da mão esquerda, desenho com eles. A criatura azulada pára por um momento e ondula. Cada molécula do corpo dele se afasta. Com um gesto elas viram uma espiral e saltam em alta velocidade para o fundo do beco. Onde se concentram em um ponto microscópico. Um flash de luz, uma pequena explosão sacode o beco e seu tremor racha um pouco as paredes. Um fugaz buraco negro, ou pelo menos seu equivalente dentro da física local. Aparentemente o defeito no sistema me deu acesso privilegiado ao controle da “matéria” naquele programa. Nada muito útil.

Segui a rua. Não era uma cidade que eu conhecesse. Parecia desenvolvida com elementos de várias cidades reais. E era bonita na sua realidade. Um pensamento triste. Eu não queria gostar dali. Podia perder o foco da situação. Não havia ninguém por perto para testemunhar o incidente na boca do beco, conveniências do roteiro. As pessoas me evitavam. Minhas roupas tinham semanas de uso e estavam cobertas de poeira assim como minha cara barbada. Tinha a impressão de ter passado um mês sentado naquele beco. Ironicamente a reação do público dava consistência ao momento. Virei á esquerda na próxima rua e desci uma ladeira que terminava em um molhe. Sentei na beirada olhando o mar, as pedras da praia e os pássaros. O corpo sentira a caminhada. Que droga. Tinha de haver uma saída. Como em resposta, no céu ideogramas chineses foram aparecendo. Olhou as letras durante um bom tempo até perceber que não sabia chinês. Esqueceram de traduzir essa parte. Pirataria meia boca.

Alguém se aproximou. Eu já sabia quem era.

– E agora senhor Geist, boa hora para uma conversa sem compromisso?

O demônio azul estava ali, mesmo figurino, mesmo cigarro. Não podia ser um jogo mesmo. A menção ao fumo havia sido abolida fazia décadas. E havia as tripas quando eles explodiram. Detalhes violentos demais.

– Porque não reparte o peso de suas preocupações comigo? Qual a causa dessa sensação de irrealidade que lhe atormenta?

– Lê pensamentos?

– Apenas auras senhor Geist, auras. A sua é muito interessante e bem expressiva, eu diria.

Então ele é uma IA. Elas eram cada vez mais comuns em RPG imersivos. Talvez um papo levantasse soluções possíveis ao dilema. Ou gerasse a discrepância necessária para um travamento total da simulação, o que poderia levar a algum lugar.

-… Hum… O senhor está preso em uma realidade simulada então? Não creio embora isso talvez não faça diferença, pois nem sei se sou capaz de perceber tal sutileza do universo onde estamos. Mas sabe, não vejo a importância disso, pois até você não tem certeza. Porque não viver o momento, aproveitar um mundo onde você tem poderes e pode usá-los para o bem da humanidade ou para ajudar aqueles como eu, preocupados com a manutanção da realidade como um todo…

– Poderes? Ah. Isto é uma história em quadrinhos então?

– Olhe William, é uma ótica, tão válida quanto a sua. Não sei, pode ser. Trabalho com vários seres diferentes e todos enxergam o mundo de uma forma particular. Muitos vivem em universos próprios. Alguns literalmente. Mas isso nunca nos impediu de trabalhar em equipe. Venha comigo para Ashencroft. Lá você verá isso com seus próprios olhos e quem sabe encontrará opiniões mais esclarecidas para a sua situação. Que tal.

Tão típico. Definitivamente quadrinhos. Não, uma ambientação de jogo em um mundo de super-heróis. Era o fim. Ou uma brincadeira sem graça de alguém. Ele nem gostava do gênero. Tudo estava a ponto de ficar mais e mais pueril e isso seria ainda mais insuportável. Ou talvez trouxesse à tona uma falha estrutural, uma brecha para escapar aquele cenário. Ao menos faria o tempo passar.

– O que é Ashencroft?

– Uma propriedade que se conecta a uma dimensão abandonada, formada por um único floco da caspa de Bahamut.

– Ah. Que empolgante. Imagine se ele tivesse perdido um pêlo do bigode. Teríamos o fantástico subplano da queratina.

– Na verdade isso já aconteceu. Mais de uma vez.

– Não me conte. Quando for a hora eu finjo a surpresa. A propósito, você é uma quebra de copyright.

– No máximo uma homenagem senhor Geist, apenas uma homenagem… Você entenderá quando entrar no clima. Venha, vou lhe arranjar roupas novas. Aproveitando o ensejo, você poderia pensar em um codinome. Eu sou o Casco Azul.

Codinome… De volta a infância.

– Pocotó, pocotó. Foi você mesmo que escolheu?

– Não, há toda uma história por trás disso. E essa piada do cavalo já era esperada.

– Você não se ofende com isso? É um demônio ou um rato?

– Senhor Geist, esse tratamento informal e ironias humanas não significam nada para mim. São maneiras leves de encarar conceitos demasiado devastadores para a humanidade compreender. Codinome?

– Ah. Fácil. Sudo Su.

– Sudoku? Conheço, é bem legal!

– Não, nada a ver.

– Hum, seu nome em Japonês?

– Quem sabe.

E sorrindo ele seguiu contra a luz do pôr do sol. Abaixo do final de tarde novas letras transparentes foram surgindo:

Molhe norte, 18:30, entardecer…

Bebel Doll

Meia luz, a voz de Sade preenchendo o ambiente e se fazendo sentir através dos ossos sintéticos dos andróides, ela geme e o elogia enquanto ele sussurra em francês na sua orelha, o clímax se aproxima…

DZUTT!IUMMmm

Ai!

O peso de um andróide o prende contra o outro. Desconfortável e dolorido ele grita:

Suporte técnico!

A música é substituída por voz feminina grave e profunda:

Boa noite senhor, nosso sistema de posicionamento global do cliente detectou que o senhor se encontra preso entre dois de nossos Dolls. O senhor está bem? É necessário o envio de uma equipe médica?

Não, não é o caso.

Tudo bem senhor, como os Dolls não estão respondendo ao acionamento remoto, mandaremos um técnico ao local.

Ei, espera aí!

Nosso técnico é um Doll especialista senhor, existe apenas para manutenção, suas preferências sexuais para ele nada significam, assim como para mim. Ele é incapaz de fazer algum comentário inapropriado.

Ah tá.

Dez Minutos depois…

Boa noite senhor.

Finalmente!!

Já lhe retiro daí. (pressiona as válvulas pneumáticas de emergência e desacopla os Dolls.)

Vejo pela minha análise sem fio que o senhor andou baixando da internet pacotes personalizados de modificação de comportamento nos seus Dolls. Ele era originalmente hetero e ela homossexual. A garantia Bebel Doll não cobre…

Ta, mas não pode só esse o defeito, faço isso toda hora.

Senhor, a mudança de orientação sexual dos Dolls modificou parâmetros na área de senso crítico do sistema de personalidade de ambos. Um ou mais fatores ambientais forneceram o gatilho psicológico que desligou seus andróides por paradoxo sensível.

Nossa! Mas o que poderia ser?

Deixe-me ver… Ah, a uma entrada comum no log do sistema de ambos, no registro do campo visual, antes do desligamento.

O que foi???

Ali senhor, esses dois bonecos de pelúcia na cabeceira da cama.

O Doll técnico aponta para uma Hello Kitty e um macaco Murphy de mãos dadas, em frente a uma enorme almofada de coração com estampa de zebra.

Corrigindo, na verdade foi a imagem da cabeceira da cama como um todo, que em determinado momento foi percebida em segundo plano e ocasionou o conflito. Mas não se preocupe, já estão consertados. Será cobrada uma taxa pela reinstalação do sistema, devido ás modificações irregulares. Quer eles com novas orientações sexuais senhor?

Manchete do dia seguinte:

Usuário processa Bebel Doll por comentário de Andróide do suporte técnico

“Discriminaram-me só porque sou fetichista!”

Hackers fetichistas derrubam o site da Bebel Doll.

Passeata dos fãs de bichos de pelúcia pelo respeito ás diferenças.

“Uma pouca vergonha que na nossa época esse tipo de discriminação ainda aconteça!”

Em blog voltado pra Dolls técnico se defende: “Foi apenas um comentário técnico, desprovido de emoção e não pejorativo.